A LOUCURA COMO ARTE DA CIDADE

Regressar a terra natal é sempre uma ruptura nos sentimentos. E esta realidade não deixa de trazer para qualquer indivíduo uma profícua revelação. Desde que parti do Jardim das Acácias em 1989, retornei ás terras paraibanas apenas cinco vezes, sempre na perspetiva de realizar algum tipo de trabalho.

Recentemente  a convite da FUNJOPE – Fundação Cultural de João Pessoa – participei da IV SEMANA DA LUTA ANTIMANICOMIAL. Teve como tema: “A loucura como arte da cidade”, propondo levantar a discussão das várias formas de loucura, de sofrimento psíquico e da importância da saúde mental para a cidade, com o intuito de informar, esclarecer e questionar as práticas que são usadas como ferramentas para o tratamento da “loucura”.

Participei com a missão de elaborar um trabalho com a possibilidade de estabelecer um espaço de criatividade e reflexão com os internos do complexo psiquiátrico Hospital Juliano Moreira. Esta experiência ocorreu com muita felicidade, e confesso que foi uma situação emocionante, em alguns momentos, senti-me positivamente desafiado e provocado em muitos aspectos: sóciológico, politico, antropológica, e na esfera da subjetividade.

Um trabalho como este não deixa de ter suas dificuldades e desafios, Foi uma semana repleta de provocações. Contudo, teve seu caráter inaugural para o hospital psiquiátrico, que na atualidade vive um momento de transição rompendo com sua rigidez administrativa e muitos vícios históricos da instituição, e com as formas de pensar antigas e caducas da psiquiatria classica. E nesse momento, sob a nova gestão da psiquiatra Flávia Fernando em que objetiva ampliar suas ações, estabelecer novas conexões ( com a Arte, e a Cultura) e provocar abertura desta unidade de saúde para a cidade, pretendendo melhores condições de tratamento das pessoas com sofrimento psíquico. Sendo respaldada pela nova politica psico-social de saúde mental do governador Ricardo Coutinho.

Cheguei no Complexo Psiquiátrico no dia 22 de maio, em pleno domingo, As 10 horas da manha com o intuito de iniciar um trabalho de sensibilização musical e criar um espaço de exploração rítmica, para um grupo de cidadãos portadores de sofrimento psíquico incluindo adolescentes/jovens em situação de risco social e alguns adultos usuários de drogas. Utilizei de inúmeras dinâmicas com a tentativa de promover a interação dos internos a oficina criativa, e possibilitar, uma maior sensibilização, estabelecendo um dialogo com a linguagem artística e assim, favorecer o fenômeno da subjetivação.

No primeiro dia sob um sol quente e luminoso, e nos dias subsequentes, a oficina realizou-se debaixo de uma lona de circo; erguida no pátio do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, a experiência de iniciação artística, foi marcada fortemente por um teor terapêutico. Compareceu um numero expressivo de pessoas com transtorno mental, incluindo jovens em situação de risco. A vivência criativa aconteceu sob um clima de muita emoção e uma participação bastante ativa, houve uma adesão surpreendente à oficina, atraindo várias pessoas da cidade e estudantes de psicologia e alguns profissionais da área de saúde. Acredito que aproximadamente compareceu mais de 50 usuários do serviço do hospital. No entanto, havia uma expectativa por parte de todo movimento antimanicomial e os demais profissionais do Complexo Psiquiátrico. Desta maneira transcorreu a oficina pelos três dias seguintes neste manuseio de sensações, procurando fazer com que estas pessoas tomassem maior consciência do espaço coletivo e social da oficina, como uma metáfora da vida, fazendo entendê-los melhor o espaço que os circunda. Promovendo uma ampliação da percepção de mundo e do universo sonoro, tendo como prioridade estabelecer um dialogo entre eles e criar um espaço de reflexão.

Fui apresentado a todos pela coordenadora da instituição Flávia Fernando que me desejou boas vindas e sorte na atividade.

Roteiro programático:

No primeiro instante, em que dei inicio as atividades da oficina, procurei não estabelecer uma relação com os instrumentos convencionais, objetivei utilizar da sonoridade corporal, psico-acústica na tentativa de fazer com que os usuários do Juliano Moreira entrassem em contato com sensações sonoras orgânicas e através desta percepção entrassem em contato consigo mesmos. Todo momento trabalhando com situações extremas, como por exemplo: longe/perto, forte/fraco, alto/baixo, agitação/quietude, barulho/silencio, expansão/contração. As dinâmicas tinham como objetivo trabalhar aspectos simbólicos e a interação, o respeito e a valorização das diferenças, com o objetivo de ressaltar os valores individuais, no entanto, na potencialização do coletivo.

Na primeira dinâmica, pedi para cada um se apresentar.

Cada um se apresentou de maneira formal e tensa, pedi para que se apresentassem de uma forma, menos tensa e mais espontânea e de forma sorridente, o mais extravagante possível. Todos entenderam a dinâmica, aderiram e realizaram com criatividade, cada um de sua forma e limitação. Objetivava com este jogo lúdico desenvolver a auto-expressão.

Dando sequência ao processo de desenvolvimento subjetivo e apropriação de linguagem, as questões:

– Dinâmicas de sensibilização.

– Trabalho de Corpo e ritmo

– Consciência da Voz

– Jogos de concentração e dispersão.

Foram dias bastante intensos e fortes.

A contratação consistia em realizar uma oficina de apenas três dias e fazer uma performance dentro da programação da IV SEMANA DA LUTA ANTIMANICOMIAL. No transcorrer da oficina, sob um forte envolvimento dos sujeitos portadores de sofrimento psíquico, fomos surpreendidos por muitos valores e talentos que surgiram na oficina criativa. O Período de trabalho realizado nos três dias foram caraterizados pelo signo da surpresa e aconteceram várias situações inusitadas e historias bastante interessante, vivenciamos momentos de intensa reflexão sobre a realidade do complexo psiquiátrico Juliano Moreira. Houveram muitos relatos marcantes, por parte dos internos (usuários) e funcionários (trabalhadores). Poderemos destacar a fala de um funcionário que trabalha na instituição há onze anos que afirmou: “Este tipo de trabalho aqui nunca aconteceu”. Ainda acrescentou: eu estou muito emocionado com o acontecimento desta oficina, com a realização desta semana antimanicomial. E desta maneira, emocionado e comovido.  Tornou-se um grande aliado, colocando-se à disposição para inúmeras tarefas para a melhoria do funcionamento do complexo, contribuindo com idéias e sugestões relevantes. Portanto. quando estávamos fazendo o fechamento, realizando uma avaliação com as pessoas envolvidas naqueles 3 dias de trabalho, analisando os resultados e a experiência dentro do hospital, sendo uma avaliação marcada por um forte desejo politico do Movimento Canto Geral e dos estudantes de se levar o resultado daquela oficina para rua como forma de marcar aquela data tão importante para cidade – para demarcar novas conquistas politicas. Entretanto, confesso que não via possibilidade disso acontecer, porque não sentia a integração, o envolvimento, a compreensão dos portadores de sofrimento psíquico e também dos jovens em situação de risco social sobre a importância daquela semana para eles e o movimento. E desta forma, sensibilizados por fortes emoções, encerramos a oficina de criação, certo de que, tínhamos atingidos os objetivos, consequentemente, não iriamos fazer uma apresentação final para mostrar os resultados daquela semana. De repente, um dos jovens internados no Espaço Inocêncio Poggi, enfermaria para usuários de drogas junto com mais dois vieram até nós e disseram bastante emocionados: “Nós queremos nos apresentar”. Afirmando isto, com olhos cheio de lagrimas. Esta situação foi o determinante para provocar em nós que estávamos envolvidos na organização uma profunda reflexão e avaliarmos nossa postura, diante daquela situação trazida por dois adolescentes. Em seguida, convoquei todos para uma outra reunião extraordinária e resolvemos realizar o fechamento da oficina e todos foram mobilizados incluindo: estudantes, funcionários, gestores de saúde e portadores de sofrimento e jovens em risco social para a preparação da performance final   no Centro Histórico Antenor Navarro em João Pessoa/PB no dia 26 de maio de 2011.

Diante deste gesto realizado pelo jovens, vimos que era necessário, ampliarmos para mais dois dias a oficina, com esta atitude atingimos o objetivo que era realizar a apresentação final e fazermos desta um ato politico que marcasse aquela data sócio-politica-cultural.

O dia da preparação dentro do espaço Inocêncio Poggi:

No dia seguinte, estava me reunindo com um grupo de jovens usuários de drogas e portadores de sofrimento psíquico para realizarmos a apresentação, final foi uma experiência bastante significativa para todos envolvidos naquela ação   artística e atitude social.

Para isto foram selecionados:

Paulo César, Michael, Valdete, Francisco de Assis, Daniel, Leonardo, Manoel Mendonça, Neca Doideira e Cicero, muitos ficaram no desejo de se apresentar, mas ficaram no Poggi porque não nós dispunha de equipe suficiente para cuidar de todos no trabalho de seria realizado externamente E ainda levamos um pequeno grupo de pessoas portadores de sofrimento psíquico para realizar um passeio pelo parque histórico de João Pessoa inclusive Celma interna que vive no hospital por 35 anos.

Relato de um jovem sobre a oficina.

O poder da musica

Aos despertar do dia, o clima parece meio tenso e conturbado

num hospital para tratamento de doentes mentais e dependentes químicos.

Alguns podem até tido sonhos maravilhosos, outros pesadelos,

outros até não terem sonhado ou conseguido dormir.

As horas vão se passando, os pacientes são medicados,

Psicólogos conversam com eles, seguranças tentam manter o local em harmonia.

As portas de grades de ferro são abertas e todos são convidados

a ir a uma oficina de música e percussão.

Muitos avançam sobre os instrumentos, outros dançam sem terem começado a musica,

outros cantam sem melodia,

ai o cenário conturbado de anteriormente vai adquirindo uma nova performance.

Em pouco tempo, os pacientes já estavam integrados a oficina, danças fora do ritmo,

letras de musicas que não existem, mas todo esse evento transforma,

arranca do coração daqueles pacientes

a euforia, agressividade, depressão, ansiedade dentre outras.

Foi fantástica a oficina, as letras e melodias que fizeram parte do evento tocou o coração daqueles sujeitos, antes eufóricos,

tristes, subvalorizados, falta de expectativa, sem razão de viver.

As melodias transmitiram terapia para relaxar e descansar o coração, o físico dos pacientes, uma maravilhosa fisioterapia.

As letras serviram de especie de liberdade de expressão, revelação de identidade e personalidade,

auto reflexão sobre os problemas encarado naquele ambiente tao carente de distração.

Como foi lindo tudo aquilo, a solução para acabar com o clima tenso e conturbado

foi encontrado em cada um dos pacientes,

não foi preciso de nada mais, alem das danças fora do ritmo, as letras mal cantadas,

as vozes desafinadas ou não para transformar aquele local em um paraíso.

Foi cantando, tocando que a felicidade instalou-se no rosto daqueles pacientes.

Josivan Segundo.

Conclusão e considerações:

Um grupo formado por pessoas com uso abusivo de drogas e com sofrimento psíquico  se apresentou no Centro Histórico na praça Antenor Navarro no dia 26 de maio de 2011 numa profusão de ritmos e poesia popular como atração artística, antecedendo a performance do artista Babilak Bah e músico Escurinho. Muitos daqueles jovens nunca tinham subido em um palco antes, senão, como protagonistas da exclusão e da violência, atores do mundo do crime. Durante toda oficina o que mais me comoveu e provocou intensa comoção, foi quando eu estava fazendo a produção da performance final e convoquei todos para uma reunião e definirmos todos os detalhes, os procedimentos. Por fim, finalizando esta etapa, sugeri que todos escrevessem um texto quando fui surpreendido. Comunicaram-me guardando no semblante uma vergonha silenciosa, revelava um ruido assombroso. Todos ali eram analfabetos de pai e mãe, com exceção de um que era graduado em nutrição pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB, tal fato ampliava ainda a contradição. Então, foi quando tomei consciência que havia ali uma distorção e um abandono do poder publico. Creio que só com uma politica publica de educação, de ação social que funcione como um conjunto de princípios, estratégias e ações que contemple as distintas realidades dos jovens, estabelecendo seus direitos e responsabilidades e afirme suas identidades e potencialidades. Uma política pública que consista em dar condições e oportunidade. Assim, as políticas devem criar condições para que os jovens participem da vida social, econômica, cultural e democrática do país com uma ação social ampla, a partir, deste principio poderemos salvar aqueles jovens vitimas de um sistema, de uma sociedade que afirma sua discriminação e ação contra sua própria juventude. Que mundo estamos criando para estes estes jovens? O que será do futuro da Paraíba sem sua juventude?

Babilak Bah­­­

Uma resposta para “A LOUCURA COMO ARTE DA CIDADE”

  1. Eu acredito que a arte é uma ferramenta de aproximação é a nossa precessãp para alterar o curso da história para sempre. A precessão é um encontro que ocorre no ângulo de 90 graus como no ângulo das esquinas. Estando os Sujeitos sujeitos a lei da Inércia, no Espaço Sideral continuarão cada qual seguindo seu curso que poderá não ser mais seu próprio curso, pois cada qual levará junto ao seu curso um pouco do curso do outro Sujeito para sempre: Até a próxima colisão. De colisões; encontros e encontros, escrevemos e provocamos os demais Sujeitos a redigir ainda que “anal” ” fabetos ” a sua linha da vida.

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