O artista independente numa turnê internacional..

No domingo do dia 21 de agosto, o IV Festival Espíri­to Poitou chegou ao final. Foi uma semana bastante enriquecedora de encontros, trocas, reciclagem estética, novas possibilidades de ampliação de mercado e, essencialmente, renovação do espírito e dos sentidos.

Depois desse período na França, participando do festival do programa Espírito Mundo em que realizei duas apresentações com bastante êxito, comprovei que minha singularidade musical e a poética das enxadas foram bem aceitas pelo público francês da região milenar de Poitou Charentes, na cidade de Celles sur Belle.

Segundo Delphine Gouret, coordenadora da produção francesa do festival Espírito Poitou, numa entrevista para um jornal local, o intercâmbio cultural propiciado durante o festival foi importante porque pudemos interagir com o humano, visto que a música é humana. Vivenciar uma semana entre a comunidade e os artistas é um crescimento para todos. Delphine também destacou que os shows que apresentei foram extremamente originais e agradaram não só à produção como ao público, e concluiu: “Foi uma uma experiência incrível para todos nós.”

Além dos shows, tive a riquíssima experiência de participar de uma residência artística com o grupo francês COUP D`MARRON e com o duo JOE ZEE do estado do Espírito Santo. A residência promoveu uma interação entre a subjetividade musical e a sonororidade acústica acrescida de linguagens eletrônicas, resultando numa apresentação surpreendente de idiomas sonoros que levou o público ao delírio.

Johnny Herno, percussinista que trabalha comigo há anos e que também teve a oportunidade de participar dessa residência, destaca que “a criatividade e o pensamento musical do artista mineiro provocaram nos músicos franceses a curiosidade de conhecer mais sobre nossa cultura e consequentemente nossa música” e concluiu com entusiasmo que “foi muito positiva esta experiência musical de interação.” Alex da dupla Joe Zee ressaltou “a importância de projetos de intercâmbio entre estados diferentes do Brasil e a possibilidade de interagir com artistas internacionais.”

Baseando-me no que vivenciei no festival, penso ser evidente em relação a nós, artistas brasileiros, e principalmente os músicos de Minas Gerais, como precisamos nos organizar e nos esforçar na divulgação de nossa música e buscar (e ter) o apoio, sobretudo, do poder público brasileiro no fortalecimento das políticas de exportação internacional da música mineira, bem como a de outros estados do Brasil.

Um dos grandes fatores é a necessidade de autoridades do Brasil perceberem que a arte e a cultura estão relacionadas às formas de vida de determinada sociedade. É fundamental esclarecer que a música funde-se na cultura de diversificadas maneiras, através das quais é absorvida cotidianamente e integrada às vivências pessoais de cada indivíduo. Mediante tal situação, constato que o maior cartão postal de um lugar é sua própria música.

Um momento de emoção pessoal que quero ressaltar aqui quando transitava pelo festival: fiquei bastante feliz quando me deparei com banners e folders de localidades turísticas do Espírito Santo e de sua culinária.  De súbito me lembrei de quando eu enviei uma carta de pedido de apoio à Secretaria de Turismo de Minas Gerais em que afirmava que poderia, como contrapartida, levar durante a viagem à Europa, materiais de divulgação da cultura mineira. Infelizmente, o pedido foi negado, com a alegação de que minha solicitação de apoio estava sendo feita à secretaria errada e deveria ser feita à secretaria estadual de cultura do estado.

Percebi naquela exposição turística do Espírito Santo, que também enriquecia e embelezava a paisagem do festival, o entendimento da secr­etaria de turismo do estado acerca da possibilidade de divulgar-se através da promoção de sua cultura, prestando seu apoio ao projeto Espírito Mundo e, com isso, à cultura capixaba.

Durante uma entrevista que fiz com Aline Yasmin, presidente do Instituto Quorum e diretora de Comunicação da Cooperativa de Música do ES, ela declarou que a Secretaria de Comunicacão de Vitória, associada à de Cultura, entendeu a importância do marketing cultural; o SEBRAE/ES, do fortalecimento da cadeia produtiva da cultura, que por meio desse projeto proporciona o encontro entre os capixabas e artistas do Brasil e do mundo, e também a Secretaria Estadual de Turismo, que tem interesse em dar visibilidade às potencialidades do Estado, seja pela arte, culinária ou suas rotas turísticas. Esse projeto, entendido como um trabalho integrado, é potencializado por sua transversalidade – cultura X turismo –, viabilizando a possibilidade de tornar o estado e a cidade destinos turísticos para os estrangeiros. É possível pensar em ações integradas que darão resultado para todas as diretrizes específicas.

Numa outra situação, presenciei um debate realizado na sede do festival do Espírito Poitou, em frente à Abadia Real de Celles Sur Belle, com músicos e produtores, em que disse Edu Louzada, diretor do Instituto Quorum:  o Ministério da Cultura do Brasil, além de seu editais de locomoção que não absorvem a crescente demanda por passagens, também possui um departamento específico de relações internacionais, o qual deveria identificar e apoiar a implementação de uma política clara para projetos já existentes, e também de outros norteados pelas diretrizes já definidas pelo próprio MINC. Um bom exemplo é a EMBRATUR que está investindo pesado na promoção do destino Brasil, dando espaço para que a cultura possa ser uma excelente ferramenta de divulgação.

Numa conversa com Sâmya Lievore, assistente de produção do Instituto Quorum e responsável pela documentação do festival, ela destaca que o estado do ES aqui na região de Poitou Charentes talvez seja mais conhecido que no próprio Brasil, devido ao intercâmbio cultural realizado pelo festival, e aconselha: “esse modelo pode ser reproduzido por outros estados”.

Aline Yasmin destaca que “esse resultado é reflexo da construção do trabalho com a cultura, uma vez que o mercado se amplia para os próprios artistas e produtores que criam alguma relacão com os agentes locais. O resultado disso é a continuidade de forma independente ao festival por meio de outros desdobramentos. 70% dos artistas que vieram à região através dos festivais, que acontecem desde 2008 (e hoje somam cerca de 130 artistas), empenharam-se em novos projetos coletivos, inclusive, levando alguns franceses ao Espírito Santo.

É relevante dizer que há um cenário bastante promissor na França para a música independente brasileira, de forma a ser explorado em parceria com outros setores da economia, uma vez que a cultura é entendida como produto de exportação com alto valor agregado. A receptividade que testemunhei dos europeus para com nossa cultura é enorme, por isso, creio que com uma política efetiva e outras parcerias poderemos ampliar a divulgação e a exportação da música mineira no exterior e consolidar seu desenvolvimento como cultura de Mercado, estabelecendo assim um valioso intercâmbio entre os países.

É sabido que já existe no Brasil, por intermédio do Ministério das Relações Exteriores, e através da APEX, um programa de exportação da música brasileira, que infelizmente ainda não dá conta de seus desdobramentos. Ou seja, as feiras realizadas no exterior são apoiadas por esse programa e abrem várias possibilidades de intercâmbio, entretanto, não existe ainda continuidade que apoie as turnês ou festivais do gênero como do Espírito Mundo. Os artistas possuem a oportunidade do contato com o mercado no exterior, mas nem sempre conseguem dar continuidade à relacão que começou nas feiras apoiadas pelo programa dessa maneira, afirmou Edu Louzada.

Por fim, quero destacar a iniciativa do trabalho que vem sendo realizado pelo   “Fórum  da Música” no estado de Minas Gerais, tornando-se um exemplo para o restante do Brasil e sendo extremamente importante para a organização política da classe musical mineira, com o objetivo de seu desenvolvimento e ampliação de Mercado em nível nacional e também internacional. Fortalecendo essa perspectiva ascendente de exportação da música mineira no exterior, percebo que no momento precisamos nos organizar de forma intensa numa ação estratégica, no sentido de garantir esta política de apoio a nossa música, abrindo um debate pela mobilização da sociedade civil organizada interessada nessa questão para garantirmos essas conquistas e ampliarmos, através de novos e múltiplos parceiros em outros estados, bem como consolidarmos essa política de divulgação da música independente no estado e no Brasil.

Que o mundo dance a nossa música. Seja no ferro, no pandeiro, no violão, no ronco da cuica ou no toque do tambor, mas que venha todo amor que houver nesta vida.

Babilak Bah.

Uma resposta para “O artista independente numa turnê internacional..”

  1. grande babilak e johnny! obrigado pela vossa música e simpatia. um grande abraço. alex

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