A linguagem das enxadas e o cabra marcado pra morrer.

A linguagem das enxadas e o cabra marcado pra morrer.ImagemPrecisamente em 1998, nos rumores finais do século passado, quando a sociedade brasileira vivia sob um quadro de tensão e contorcia-se de dores devido à política econômica implantada pelo governo neoliberal FHC, eu convocava os estudantes e a comunidade de Belo Horizonte a participar de uma oficina de percussão: Vivência Percussiva: Oficina Experimental Lúdica de Sons e Movimentos. Este encontro inusitado com mais de cinquenta jovens, na antiga moradia estudantil universitária Borges da Costa, tinha como finalidade explorar sons com enxadas. 

A pesquisa resultante desse primeiro encontro possibilitou uma maior percepção do objeto estudado e a compreensão de seu uso e manuseio técnico. A iniciativa recebera críticas e muitos viram essa atitude percussiva com estranheza e desencanto. No entanto, insisti nessa perspectiva musical que me revelara várias possibilidades.

Dali resultaram inúmeras intervenções de rua intituladas Saque Sonoro – in memoriam  de João Pedro Teixeira: o cabra marcado pra morrer, imortalizado pelo documentarista Eduardo Coutinho. Fiz dessa iniciativa uma metáfora dos saques que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desenvolviam no nordeste brasileiro e pelo país afora. Até ali, tinha iniciado um grupo de intervenção urbana com o objetivo de despertar a sociedade para a temática referente aos processos sociais do campo e, não hesito em dizer, um problema de toda a sociedade. Nesse contexto de tensão e barbárie, surgiu o Saque Sonoro.

O grupo utilizou o espaço da moradia estudantil até que, alguns meses depois, a polícia federal invadiu a casa numa madrugada de domingo, em setembro de 98, com bombeiros, PMs, esquadrão antibomba, cães e cia Ltda., expulsando de forma arbitrária e bárbara os estudantes, que ali resistiam à ordem de desocupação da reitoria da Universidade Federal Minas Gerais – UFMG.

“Pegaram todo mundo dormindo e saíram espancando, arrastando pelos cabelos, alguns seminus e outros sem roupa, todos indefesos. Arrombaram as portas à marreta, quebraram todas as coisas”. O que restou enviaram para um depósito da Polícia Federal no bairro Cachoeirinha, inclusive os tambores e as enxadas.Imagem-Nas fotos: um folder de uma intervenção realizada no Festival de Inverno de Ouro Preto e depois uma intervenção na Feira de artesanato que acontece aos domingos na Afonso Pena.

 Babilak Bah

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