Confissão de um homem comum.

Confissão de um homem comum.Imagem

(…Um homem como eu, só tendo os próprios recordos para se agarrar, não pode realmente compor um retrato de si mesmo que seja a historia fiel de sua vida vivida, poderei eu?
Memória eu tenho demais. Podia por nesses relatos muito mais detalhes que dispenso, cuidando que já exagero. Compreenda, seu padre, mais de cinqüenta anos de vida foi o tempo que levei para compor as memórias que estão guardadas em mim, da minha vida vivida. Resumo nessa confissão esse meio século meu, quando o que queria era viver meio século mais. Para isso pagaria com tudo que tenho. Isto é o que quero, ficar vivo…)

(…Mas todos esses cinqüenta anos suados a que tenho direito. Ate pobreza aceitaria, penso se houvesse com quem negociar.
Só não negociaria, acho, a salvação de minha alma, o repouso eterno. Não negociaria, não? Com certeza? Olha que negociaria. Ao menos falar com o diabo, aceito falar. Conversar, via as condições dele. Por mais cinqüenta anos de vida, talvez não. Seria trocar esse tempinho à-toa pela eternidade toda de sofrimento. Mas, mesmo por esses parcos cinqüenta anos, se fosse com saúde e algum dinheiro e mando, acho que negociaria…)

Extraído do romance – O MULO –
Darcy Ribeiro.

 

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