Sobre as asas do ferro. (com a mão na enxada cavando o terreno da imaginação.)

Sobre as asas do ferro.  (com a mão na enxada cavando o terreno da imaginação.)

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Para um artista refletir sobre o seu processo criativo é um mergulho bastante custoso, sobretudo um desafio: risco temeroso, entretanto, “na arte, onde não  se buscam formulações conceituais, o esforço de ordenação de experiência se realiza num limite arriscado onde o artista joga a cada instante o seu destino: ou funda a cada obra novos significados, ou nenhum de seus gestos tem sentido“ Gullar. Dando sequência a tradição de traduzir este fazer estético que busco neste relato um certo grau de compreensão com este exercício, mesmo com todas as implicações desde intento. Atualmente atravessado pela necessidade de escrever sobre o processo de construção que articulo esta confissão sobre a poética do ferro permeada pelo o signo da enxada.

 Persistência e teimosia.

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Venho algum tempo dedicando-me na constituição de trabalho plástico/poético, utilizando-me do elemento ”ferro“ sendo uma feitura e experiência subjetiva extremamente prazerosa, sobretudo de expansão de sentido, tendo como motivação complementar outro objeto bastante significativo na minha atividade estética, fundamental na carreira artística no campo da musica: “a enxada“. Este artefato é utilizado como uma partícula, extremamente particular, entretanto, em momento nenhum é usada como coisa mínima, pelo contrário, aqui é atribuído em seu aspecto polissêmico: este sistema poético ou conjunto de signos surge da necessidade como um desejo de revelar a polifonia, as vária facetas que estão intrínseca no universo da enxada, nuances, significação, numa perspectiva, tanto sociológica, simbólica, antropológica, política, plástica, e essencialmente: poético-musical…

A enxada como objeto de exploração sígnica.

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Esta ferramenta e objeto de linguagem chega no meu processo artístico de forma inusitada, extremamente misteriosa, atravessa-me por muitos anos, teve seu inicio simplesmente quando adquiri uma enxada, comprada no antigo Centro Comercial de João Pessoa na Maciel Pinheiro, desde então, este utensílio acompanha-me por todos os lugares que estive. Depois da única enxada que tinha na mão, a mesma tornou-se um enxadario: orquestra de enxadas, passou por inúmeras transformações, processo evolutivo tomando corpo de enxadigma, unindo-se a linguagem eletrônica. Em dado momento, invadiu-me com todo seu mistério – um enigma. Em outras situações, um paradigma no sentido de adquirir novas compreensões, exigindo-me decifrar outros códigos, conceitos no campo da linguagem e da criação estética. Portanto, durante todo este período esta lâmina cortante abre novos cortes na consciência criativa, provoca afeto e me afeta num atravessamento proporcionando transformações em meu fazer poético artístico, existencial.

A instalação: uma gravura sonora expandida em seus primeiros passos. (A paisagem sonora sobre o genocídio no campo)

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Na atualidade, este novo momento de investigação denominado: Som de vida, ruído de trabalho, canto de morte. Instaura seus primeiros passos para uma concretude e realização, trata-se de uma instalação que procuro fazer uma denúncia do genocídio dos trabalhadores rurais do Brasil, utilizando-me a principio da historia iniciada pelas ligas camponesas, depois continuada pela a luta do MST (movimento dos sem-terra) assim,

Procuro estabelecer uma ponte entre a estética e política, com isto, pretendo realizar uma transversalidade com os signos mágicos da religiosidade afro-brasileira utilizando-me da simbologia e a poética do sagrado. criando uma amalgama desses conteúdos. Aparentemente tão distinto, entretanto, sociologicamente próximos.

Esta iniciativa de realizar o: Som de vida, ruído de trabalho, canto de morte. teve inicio, quando escrevi-me na bolsa Pampulha no ano de 2013 – fui inabilitado devido: o não envio de uma CND, (certidão negativa de débito) confesso,  que este fato deixou-me bastante aborrecido, chateado. Na perspectiva de ultrapassar minha angústia e evitar um mergulho maior no universo melancólico, resolvi arregaçar as mangas, realizar este projeto que eu já vinha há anos adiando sua realização.

Campanha mal sucedida. (Meus amigos do facebook não são amigos de ninguém)

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No primeiro momento, tive a iniciativa de criar uma campanha no Facebook, na qual,  solicitava a doação de enxadas velhas ou usadas, podendo ser até novas, entretanto, não tive nenhuma resposta ou êxito da comunidade facebukeira, sendo assim,  comecei a realizar o trabalho com recursos próprios, não sendo de outro modo, fui a luta na perspectiva de sua produção e realização, já que este desejo era latente em minha alma, algo em mim gritava, exigia sua feitura, tanto uma voz ancestral como um grito político, reivindicava-me em meus momentos mais silenciosos.

Não tendo êxito na minha campanha on-line, pelo Facebook, busquei uma alternativa, realizar uma pesquisa de materiais nos depósitos de ferro-velho  espalhado na região norte da cidade de Belo Horizonte,  na maioria da vezes estes ambientes são rico de poesia e guardam boa matéria-prima para produção de arte. Este contato com estes atores que vivem e dedicam-se na manutenção de objetos reciclados foi um riquíssimo ambiente poético e existencial que abriu-se no meu processo de criação, trazendo-me novas informações de um mundo totalmente desconhecido.

Outro território que este trabalho fez-me descobrir, foi realizar outra pesquisa nos galpões de serralheria, conhecer novos trabalhadores, senão co-autores desse trabalho de investigação poética do ferro, criativo com a enxada, isto fez-me aproximar do agente serralheiro. Desse artista anônimo no coração das cidades.

 

O processo. (Um cotidiano marcado pela observação e por um olhar enviesado para a feitura.)

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Por a mão no ferro, cavar com a enxada o terreno da imaginação com sutileza, e perspicácia. É desta maneira que é construído este minucioso trabalho de criação, proporcionando-me conhecer, descobrir outros processos criativos, facilitando desdobramento, estabelecendo interação, me pondo em contato com novos  saberes, fazendo-me desbravar novos territórios de criação espontânea.

Já na intimidade de meu atelier de linguagem, este contato com a enxada e o ferro acontece de forma muito singular, dentro de um cotidiano motivado pela observação, pela simbiose. O exercício de molhar todos os dias, atirar água com sal e outras substâncias, tanto o ferro como a enxada com o objetivo de adquirir o estado de ferrugem, criar novo designer, fotografar em vários momentos e horário do dia utilizando-me da posição da luz, do estado de espirito que me encontro, Contudo, proporciona vários momentos de reflexão, inúmeras cenas, imagens inusitadas que registro como fotografo, dando-me um outro processo de criação. Tudo isto, trata-se absolutamente de uma experiência subjetiva, intransferível. Só estando no território da ação para adquirir este saber.

Rascunho,  raciocínio,  intuição com o objetivo do poético em ferro bruto.

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Vivenciar este momento de construção numa simbiose entre o pensamento aguçado, a intuição aflorada constituindo-se de maneira pragmática é absolutamente fantástico, inusitado. Este fazer poético é realizado no aspecto do olhar critico na contemplação das novas formas que vão se articulando no espaço do atelier, da enxada exposta ao relento, os símbolos no corpo do ferro ao ar livre. Confesso, que a realização desse trabalho se dar com muita paixão, continua: desde a compra de materiais, do acompanhamento, ao processo em estado de ferrugem. A elaboração e criação de objetos no papel, as vezes produzido no computador. Finalizando este processo, levar as peças pré-montadas para os galpões de serralheria tornando-se um atelier expandido, Auxiliar o processo  poético sendo construído a martelada, tudo isto é vivido com muita emoção, neste contato com o serralheiro, discutir maneiras, acompanhar o processo da solda, testemunhar o ferro e a enxada em metamorfose. Por outro lado, ter o desejo de participar do processo de produção, querer experimentar esta transformação tanto soldando como dando as marteladas. No fim de tudo trazê-las para casa como objeto em estado de poesia, orgulhoso pelo resultado bem sucedido.  Entretanto, depois de prontas, ser invadido por idéias criativas, imagéticas,  as vezes na rua,  dentro do ônibus ou situações do cotidiano mais corriqueira, esta nova situação vem proporcionar outro processo criativo, desejar refazer tudo outra vez, o que já está feito, rever, consertar, corrigir. E neste dilema, realizar a travessia de outros processos de sentido do pronto que nunca se acaba, assim, vai se criando outros desdobramentos. refazendo em signos e linguagem.

Som de vida, ruído de trabalho, canto de morte. (Esta instalação está em seus primeiros passos.)

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No momento estou diante de alguns objetos já definidos, pronto e acabado, sinto a vibração simbólica, estética de cada peça, absolvo um mistério e um prazer absoluto seguido de uma vontade de continuar.

Babilak Bah.

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Uma resposta para “Sobre as asas do ferro. (com a mão na enxada cavando o terreno da imaginação.)”

  1. Salve Babilak Bah, esteta da ferrugem. Ferreiro da música.

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