A cidade de Salvador são muitas: várias diásporas numa só metrópole.

Mini-biografia – Capitulo avulso.

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A cidade de Salvador são muitas: várias diásporas numa só metrópole.

Em 1992 residia em Ouro Preto, parti da cidade do ouro rumo a Blumenau para participar do Festival Universitário da Canção acompanhando o compositor Cláudio Fraga, ficamos em segundo lugar, obtendo este resultado, resolvi ficar morando em Santa Catarina no pequeno balneário de Camboriú, trabalhando como percussionista numa casa de espetáculo de mulatas, denominada Makulelêdirecionada para turistas argentinosDando prosseguimento ao mergulho pelo mundo, segui para Bueno Ayres, na qual morei por seis meses tendo o objetivo de divulgar o meu trabalho na capital portenha, no entanto, esta iniciativa foi bastante válida pela vivencia profissional sobretudo, por ter sido a primeira vez que tinha saído do país. Em um certo dia, andava por um bairro de Bueno Ayres,  de repente, veio uma senhora em minha direção com a cara mais cínica, deu-me uma banana, e sorria com deboche. A partir desse fato tomei a decisão de vir embora pro Brasil, resolvi morar na Bahia em pleno auge do axé – retornar para Salvador, confesso, foi uma experiência marcante tanto no aspecto pessoal como no artístico. Eu já tinha feito uma passagem rápida por Salvador durante os anos 80.

Em solo soteropolitano, durante este período, mantive um contato intenso com a vida cultural da capital baiana, estive em boa parte circulando pelo Pelourinho, no qual, conheci suas contradições, suas belezas: os becos, as ruelas, os batuques, vários artistas, inúmeros músicos, compositores, poetas, escritores, artistas plásticos, pai de santos, turistas,  personagens ilustres: figuras inusitadas que transitam pelo conjunto arquitetônico do barroco baiano, também tive a oportunidade de me aventurar por outras regiões, no qual, mantive contatos, tomei conhecimento de um Brasil bastante  autêntico.

A cidade de Salvador são muitas, são várias diásporas dentro de uma só metrópole, cidade negra por excelência. Nela eu abri as sete portas para inúmeras sensações: descobertas para os cheiros, os aromas, novos temperos, uma entrada no campo do mistério, convivência com a diversidade e crenças. Fui atravessado por ritmos eletrizantes. Em muitos momentos me encontrei em tumulto no Terreiro de Jesus. Perplexo, vivendo esta situação existencial, entendi que Jesus não xinga Xangô. E fui construindo o meu percurso do Bonocô a comunidade da Boa Morte. Morri várias vezes, renasci ouvindo os filhos de Gandhi e outros ijexás que perfilam no caldeirão sonoro da Bahia.

Na cidade dos trios elétricos, onde alegria dança com facilidade algo me gerou espanto, chamou-me atenção: foi a contradição social, a condição do negro, a exploração que a indústria cultural se utiliza para enriquecer usando a cultura do negro baiano, a violência policial, a falta de infra-estrutura da cidade de Salvador que conheci naquela época. Por outro lado, testemunhei um povo alegre, a cultura viva nas ruas, a rua em salvador é um território vivo, pulsante onde existe troca de saberes no cotidiano das pessoas, em suma, as ruas são bibliotecas a céu aberto que obriga a qualquer leitor realizar leituras múltiplas, profundas do dia-a-dia da cidade. Sendo impossível viver nesta terra sem logo aprender ou assimilar o baianês, tanto na língua como corpo da população. Na terra de todos os santos, o corpo é um abecedário, letras vivas, corpos que se afirmam num discurso multicolorido, polirritmico.

Por diversas vezes atravessei a Praça Castro Alves declamando versos de Gregório de Matos. Vi rodas de capoeira, observei o oceano de longe, fiz amigos na comunidade hippie de Arembepe, toquei na Tribo do Sol, conheci o Mercado de São Joaquim. De barco fui ao Mar Grande, contemplei a travessia de Ferry Boat até Itaparica. Descobri o Morro de São Paulo. Fui de trem para o Recôncavo, presenciei Dona Canô, abençoada com sua fé, numa procissão com milhares fies na festa da padroeira de Santo Amaro, dancei samba-de-roda em Macangalha, contemplei a beleza da chapada de Diamantina, banhei-me nos Lençóis de água clara, visitei Ilê Axé Opó Afonjá, Vi o bairro da Liberdade cantando e dançando com os tambores do Ilê AiyêFui até o Bonfim. Joguei minha jangada no horizonte. Descobri novos mares.

No entanto, foi no Abaete – uma lagoa arrodeada de areia branca – que me senti a vontade, ouvindo seus ventos num alarmante murmúrio, foi envolvido com esta escuta que resolvi andar por debaixo de novos céus.

Arrumei as malas, segui tocando a vida, no sentido de ouvir a história de outra terra.

obs: foto com o artista plástico Day Tribal na entrada do Pelourinho.

Babilak Bah.

5 Respostas para “A cidade de Salvador são muitas: várias diásporas numa só metrópole.”

  1. Na sola do pé a bussola instinto de veias e leme de osssos ,na areia do grande mundo ,da terra mãe,um salve a babilak e suas vivencias.

  2. e assim…o homem guerreiro, segue no mundo e vai firmando seus passos…

  3. Andarilho sensível, sua delicadeza ao compartilhar a realidade com tanta magia nos impulsiona a vivencia-la de forma mais humana.
    Lindo texto, lindas experiências.

  4. que vivência linda e rica….

  5. edson luiz pereira Says:

    A bahia tempera todos os pratos que a vida nos oferece .

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