Poesia – inutensílio útil à alma.

 

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Há uma crença no mundo da arte literária, que a poesia não é para quem a procura, mas para quem ela escolhe. Parece-me ser o caso de dois ilustres poetas: Clarissa Macedo e José Inácio Vieira de Melo, ambos escolhidos pela deusa da palavra para serem semeadores de miragens e inutensílios úteis à alma.

Esta semana, tive acesso às obras poéticas: Na pata do cavalo há sete abismos, de Clarissa Macedo e O Galope de Ulisses, de José Inácio Vieira de Melo. Livros de alto quilate artístico, finíssimo acabamento, projeto gráfico de muito bom gosto, sem falar do refinamento na composição dos poemas.

Cavalguei por horas com Clarissa, decifrando “Na pata do cavalo há sete abismos”; percorri paisagens de lirismo, nos campos da senhora poesia, cai em reflexão diante de poemas que se aproximam da filosofia e questionam sobre o mundo e as coisas da vida. Clarissa surge como a grande revelação da poesia baiana, ganhadora do Prêmio Nacional de Poesia da Academia de Letra da Bahia, em 2013 (ABL). Como a nova voz da poesia contemporânea, Clarissa, tem a palavra certa para seu “cataclismo.

“Encantado é o cavalo que não lê jornais

Que não tem conta em banco, que não

dirige, mas galopa léguas de terra

conhece melhor o amor e ignora a guerra.“

No Galope de Ulisses, coletânea  que reúne a produção poética de José Inácio, chega-nos com gosto de sertão, faz a travessia de uma palavra madurada, fruto de silêncio e rebuscamento na lida com a pedra, sobretudo, com os outonos da existência. O poeta, tráz suas lembranças para o corpo do poema, que refina o espírito e educa a percepção: galopar na infância é a sua metafísica.

“Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor.

Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência

E desperte a vontade de plantar pedras em outras cabeças”.

Num galope duplo, por trincheiras líricas e belas metáforas, percebi uma aproximação estilística entre Clarissa Macedo e Vieira de Melo; ambos não se arriscam em transgressão de linguagens, nem neologismos ou visualidades com a letra. Não há nos poetas em questão nenhum tipo de experimentalismo, mas o que conta é o exercício do verso, sendo assim. O que os dois poetas produzem é extremamente pensado, sentido, construído com esmero e justeza,  pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, num desenho extremamente lógico. Fica entendido: poeta que se preza, busca com muita precisão, simplesmente, a poesia.

Não sendo de outro modo, li nos poetas: ampliaram-me a visão, povoaram-me os sentidos, fazendo-me atravessar ruínas que se abriam na palma da minha mão. Entendi, a natureza do poeta é cavalgar horizontes numa escuta dos abismos.

Na pata do cavalo há sete abismos e O Galope de Ulisses são duas leituras recomendáveis para quem aprecia a poesia.

Adquira-os. Galope para dentro do redemoinho e desvende os sete abismos de Ulisses, antes que o mundo mostre os seus ferrões.

“Despidos de crinas que não se reconhecem

Cravados de marcas de ferro

Fugidos pela palha que nega o que desejam

Mortos pelas pirâmides que migraram

Surdos pela sinfonia que não se nomeia

Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas

Vivos pelas correntes que berram astros

… assim são os cavalos de concerto de meu coração

crianças que preparam o primeiro verso,

feras que não se sujeitam”.

Sobre os autores:

Clarissa Macedo soteropolitana (BA) radicada em Feira de Santana.É licenciada em letras vernácula ( UEFS) mestre em Literatura e diversidade cultural pela mesma universidade, doutora em Literatura e cultura pela UFBA.

José Inácio Vieira de Melo alagoano radicado na Bahia, poeta, jornalista e produtor cultural. Coordenador e curador de vários eventos literários, como Porto da Poesia, 7ª Bienal do Livro da Bahia entre outros. Tem poemas traduzidos para os idiomas: espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês.

Babilak Bah.

 

 

 

 

2 Respostas para “Poesia – inutensílio útil à alma.”

  1. belo desenho do seu encantamento com as obras. não conheço nenhum dos poetas e nem suas obras mas o seu texto instigará todos os leitores a conhece-los. eu gosto de poetas que transgridem. poetas que segue todas as normativas não em raramente me agradam, por isso amo nicolas behr, kerouack, ginsberg… mas fiquei muito interessado em conhecer suas obras. a sua apresentação que desenha tão bem o seu encantamento, me trouxe a vontade profunda em lê-los.
    inicialmente me prendi por suas referências poéticas pois, “cavalo” é o nome do meu herói de plástico e que trago em dois dos meus livros e “pedra” é um dos meus trabalhos preferidos; “pedras camufladas em palavras”.

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