A poeta e a ilha no oceano da palavra.

2Na minha passagem recentemente pelo o interior da Bahia, fiquei sabendo do falecimento de alguns amigos do campo das artes e do universo da poesia. Desde então, fiquei atravessado pelo anseio de escrever um artigo que discursasse sobre poesia e morte. Não necessariamente nessa ordem. No entanto, antes de me enveredar pelo cemitério das ponderações, saliento: a vida dos anônimos é algo que me fascina, desperta interesse.

O entusiasmo se multiplica quando o ilustre desconhecido trata-se de um poeta. E nesta abordagem torna-se um assunto de relevância. Apesar do desconforto, quando se trata de refletir sobre a morte desse notório anônimo: figura idealista que morreu acreditando em seu sonho e objetivo artístico. Contudo, este mergulho, pelo curso da escrita, alinha-se a uma aventura desfavorável pelo tamanho do incômodo.

8360280231_5840eafd10_bA reflexão perpassa o território do infortúnio que é falar de um artista falecido, inserido na geração, na qual, você faz parte. Sinto tal situação como um sonho que vai minando, ruindo, desabando por terra. Nesse processo reflexivo, a gente também desfalece, junto com cada poeta que morre. Não morre a escrita, morre seu decifrador. O poeta faz a sua escolha. É sabido, nem todos são escolhidos pela poesia. E para aquele que recebe esse chamado, é necessário coragem para assumir tal condição: ser poeta.

Entretanto, debruçar-se sobre a vida de um poeta é algo prazeroso, estimulante e desafiador… por mais insignificante que pareça ser a sua produção. Portanto, quero falar da poeta Ângela Toledo, poeta que teve sua grandeza de espirito entre os mortais, provocadora e preocupada na construção de um mundo melhor. Uma artista profundamente envolvida em seu personagem: ao seu imaginário criador.

A poeta natural do Rio de Janeiro, desde a adolescência, descobriu o que afirma Roland Barthes nos Fragmentos do Discurso Amoroso: “ A palavra é de uma tênue substância química que produz as mais violentas alterações”. Na juventude, migrou-se para a capital soteropolitana, onde conviveu com vários poetas. A partir de então, resolveu ser empreendedora de seu imaginário. E assim, teve sua vida dedicada a poesia, ao mundo da palavra, com elas construiu uma atitude poética existencial que merece estudo e admiração, até mesmo de outras artes.3(Angela Toledo realizando uma performance ao lado do poeta José Inácio Vieira de Melo)

Não construiu uma obra poética de destaque que gerasse interesse da crítica literária ou de outros curiosos por versos e poemas. Em contrapartida, Ângela Toledo, poeta e performer, sacerdotisa da palavra como a definiu certa vez, o compositor e poeta Jorge Mautner. Movida pelo amor a poesia, utilizou de vários suportes, no sentido de difundir a sua voz na poesia feminina: fez cartão poesia, camiseta, cartaz poema, livro e ainda idealizou a casa da poesia, articulou a mostra de poesia, realizou intervenções. Ela fez dos poucos muros das pousadas de morro de São Paulo um painel, estabelecendo-se nesta mídia, de tijolos, cal e cimento, uma possibilidade para estampar sua poética. E desta forma, promovendo inúmeras reflexões estéticas e sócias para os moradores, transeuntes e turistas da ilha.

8Eu a conheci quando morava no início dos anos 90, no Morro de São Paulo-BA. A poeta, abandonou a república do consumo, a metrópole das vaidades. Desse modo, resolveu construir e atuar com a palavra na pequena ilha, numa vida solitária, sem filho, marido, onde seu romance amoroso se dava com o universo da palavra. Militante por justiça social, realizava trabalho de educação ambiental com crianças. As vezes, atuava como atriz e vendia seus “inutensílios poéticos” na feirinha Hippie.

SILÊNCIO

Tem silêncio em mim,

que não me deixa nem

silenciosamente escrever.

Tem um silêncio em mim,

que ninguém consegue ver

que se perde em si próprio

de tanto se saber.

Tem um silêncio em mim, que

se guarda e se separa,

que se acalma, mas não pára,

que se esconde mas não se cala.

Tem um silêncio em mim,

que nem sei de onde vem:

talvez venha de alguém

e se guarde não sei prá quem. (Ângela Toledo)

Ãngela Toledo e crianças - Morro de São PauloViva o eterno silêncio de Angela Toledo, a poeta da ilha no oceano da palavra.

Fotos não sei os autores.

Babilak Bah

2 Respostas para “A poeta e a ilha no oceano da palavra.”

  1. Folgo em saber, pela fonte luminosa do seu olhar, da vida poética de Ângela Toledo. Fica um gosto gostoso da apreciação existencial múltipla que ela soube oferecer. A errância do aprendizado com educação andarilha. A educação andarilha na poética de Ângela Toledo revela um tipo de silêncio que não cai no holofote da palavra e um tipo de palavra que não cai no apagão do silêncio.

  2. Que coisa linda, Babilac Ba. Não conhecia essa poeta. Com mesmo sobrenome meu…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: