O mestre me atravessa com a magia dos ritmos – Doudou N’diaye Rose.

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Esta semana na madrugada de quinta-feira tomei conhecimento da morte do famoso músico e percussionista Doudou N’diaye Rose aos 87 anos, mestre do tambor-mor do Senegal e um dos mais célebres músicos africanos. Tornou-se uma célula sonora unindo-se a rítmica das alturas. Classificado pela Unesco de “tesouro humano vivo”. Viverá sempre na lembrança de quem teve um dia a oportunidade de ver de perto seu talento, elegância e maestria.

Para aqueles que não sabe de quem se trata, Doudou N’diaye Coumba Rose era um ‘griô’ – género de músicos que tinham a responsabilidade de preservar e transmitir histórias, fatos históricos, conhecimentos e as canções do seu povo – cantor e compositor da tradição da etnia senegalesa ‘wolof’.

O músico colaborou com grandes nomes da música, como os britânicos Rolling Stones, os americanos Miles Davis e Alpha Blondy, o sul-africano Lucky Dube e o seu conterrâneo Youssou N’Dour. Grande mestre especializado no sabar, o tambor tradicional do Senegal, geralmente tocado com uma só mão e uma baqueta, Doudou N’diaye Rose inventou centenas de novos ritmos, e mesmo alguns novos instrumentos.

Respeitado pela imprensa europeia, em 1991, um artigo do jornal francês Le Monde chamava-lhe “o matemático dos ritmos. Doudou N’diaye Rose trouxe as múltiplas variantes do sabar, verdadeiro instrumento nacional do país, presente em festas familiares e na Igreja, nos comícios políticos e em qualquer banda senegalesa que se preze. Além de ser considerado um dos melhores intérprete do sabar, foi também um notável maestro de percussionistas, chegando a dirigir centenas de músicos. Chamo-o de senhor da polirritmia.

A comunidade artística e o universo percussivo mundial, perdeu uma grande referencia da literatura dos tambores e da musica percussiva.

Sendo de uma família de contadores de historias teve que lutar contra seu pai, um contador, que rejeitava a ideia de ter um filho músico, sendo assim, o grande mestre levou muito a sério a sua arte e o ofício de músico. Segundo suas palavras, explicou: “Eu nunca quis tocar cegamente. Procurei os mais velhos para que eles me ensinassem a língua muito específica da percussão: como anunciar que há um incêndio florestal, quando uma cobra morde alguém, que a esposa que acaba de se casar entrou na residência marital e que seu marido é satisfeito com ela”.

Há uma informação de que o mestre do sabar tenha gerado uma extensa prole que, segundo diversas fontes, se situará entre os 38 e os 42 filhos, Doudou N’diaye Rose pôde ainda fundar, recorrendo apenas à sua descendência e aos que se juntaram à família pelo casamento, os Drummers of West Africa, um dos mais respeitados grupos de percussão do mundo.

Eu o conheci em 92, tive o privilegio de fazer uma oficina com ele no Teatro Castro Alves em Salvador pelo Perc-Pam Mundial. E assisti o seu show acompanhado por vinte filhos no mesmo teatro, Ainda me lembro e me emociono quando Nana Vasconcelos anunciou seu nome, com vocês o mestre: Doudou N’diaye Rose. O teatro veio abaixo.

O mestre me atravessa com a magia dos ritmos.

Baabilak Bah.

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