Relatório dos afetos: o encontro com o universo mito-poético dos Bianos

Relatório dos afetos: o encontro com o universo mito-poético dos Bianos

“Lá a capela nave sem instrumentos. Nela o que os inspira é a musica os santos no reinado“  Edimilson de Almeida Pereira.

No prefácio do livro: “A Roda Do Mundo“  de Edimilson de Almeida Pereira e Ricardo Aleixo, o antropólogo e poeta Antônio Risério, munido por um olhar extremamente crítico, sobretudo, sem papas na linguagem, sem utilizar de metáforas, afirma: “Em terras das Minas Gerais, onde africanos escravizados comeram o pão que o diabo europeu amassou”. E assim, é enfático ao dizer como viveu o negro nos tempos do ciclo do ouro sob o domínio colonial. Por outro lado, sabemos, que a luta dos negros frente a escravidão foi também a resistência de toda uma cultura para sobreviver, para manter seus elos originais e sua identidade. Esse fato histórico, foi o que testemunhei, recentemente, ao me deparar com uma contradição colossal. Assisti a tudo atravessado pela ótica da geografia critica pensada por Milton Santos, em suas análises das contradições que ocorre entre a modernidade e o território. Diante de tal quadro, pude perceber a realidade que fica apenas a cem quilômetros de Belo Horizonte. Lá presenciei o abandono, em contrapartida, tomei conhecimento do patrimônio cultural do universo banto, ainda conservado por uma família negra conhecida como os Bianos

DSCN9491O encontro de diásporas, formalizado por um negro-nordestino com a afro-mineiridade foi possível devido a provação do Som Afroprogressivo no edital “Seleção de artistas para vivências culturais do projeto Folclorata: Encontro das Culturas Populares de Jequitibá/MG”, através do Instituto Jardim Cultural. A seleção consistia em realizar um show que integrava a programação do Festival do folclore, também participar de um período de vivências culturais junto ás comunidades tradicionais do município de Jequitibá.

Por esse mecanismo, tive a satisfação de conviver durante uma semana na comunidade Quilombola de Lagoa Trindade, na qual, vivenciei uma experiência relevante, no sentido de aprimorar o processo subjetivo, o alargamento das possibilidades de criação, além do aspecto perceptivo, dando-me subsídio para a análise crítica da nossa história. Assim, impulsionado por esse encontro, tento aqui descrever os dias em que vivi com a valiosa cultura, sobretudo, de herança africana, conservada pela família congadeira dos Bianos. Ilustrado com fotos, pequenos vídeos que revelam a delicadeza, a fragilidade, além do universo simbólico, mito-poético-religioso, essencialmente ancestral, do negro no interior de Minas Gerais.

Primeiro dia das vivências culturais.

 Na primeira noite que dormi na Comunidade Quilombola de Lagoa de Trindade, acordei às 05:50 com o céu ainda faiscado de vermelho, fechei os olhos por alguns instantes, contemplei com intensidade aquele lugar no mundo, ao escutar o coral dos galos. Constatei, a compreensão de João Cabral, um galo sozinho não tece uma manhã. Assim como um negro solitário não inaugura um quilombo.

Levantei-me, fui ao quintal, o dono da casa, o Sr. Jatobá, casado com uma Biana, já estava acordado, colocava comida para os pássaros, um canário Belga criado na gaiola, dois cachorros domesticado na corrente, faziam a guarda da casa, denominado, Chiquinho e Pretinho, ambos latiram para mim, creio, dando-me um bom dia. Depois, percebi que havia mais um cachorro, cada um deles criado dentro de um túnel exposto no chão do quintal da charmosa casa. Então, resolvi caminhar um pouco pelo quintal, fui até o portão da frente, tipo uma porteira, abri, e caminhei pela estrada de barro, um barro vermelho, andei uns 300 metros e voltei, fiquei intranquilo, uma suspeita me invadiu, fiquei preocupado de alguém estranhar meu passeio pelo arraial. Voltei, entrei no quarto, li um capítulo do livro: O HOMEM QUE PENSA de Viviane Mosé. Depois fui na cozinha, conversei, tomei café. Fiquei mais de duas horas numa prosa. O tempo chuvoso, permaneceu durante todo dia. A parte da manhã foi demorada, veio a hora do almoço. Foi uma comida simples. No entanto, deliciosa. Comida de Quilombo, angu e frango. Eu bebi uma cachaça para abrir o apetite, dentro da garrafa havia uma raiz. DSCN9248 O almoço foi maravilhoso, uma delícia. Eu, Almin meu filho e a Suelen, uma estudante de antropologia que acompanhava a vivência cultural, todos nós repetimos e comemos além do necessário de tão saborosa era a comida.

Conversamos sobre várias coisas e fiquei curioso como foi feito o angu. Assim perguntei para a Raquel, a dona da casa, e a sua irmã Edna, ambas filhas de filha de Dona Dorvalina. Mas, a Raquel disse-me quem poderia responder melhor, seria a Edna. “Essa é uma cozinheira de mão cheia, muito talentosa com os temperos”. Edna falou como preparou o angu. Porém, não revelou os segredos dos condimentos.

Depois veio a sobremesa, um mousse de morango, acompanhado de doce de laranja e mamão. Nós ampliamos ainda mais a prosa e lá fora transcorria uma fragrância de paz e uma sonoridade de pássaros, cantos de galos, latidos dos cachorros. E de maneira prolongada, passava de vezes em quando um carro bem longe pela estrada, modificando a paisagem e o território.

Eu senti a necessidade de deitar um pouco, coisa que não faço depois do almoço. Então, eu fui me deitar, porque o tempo estava chuvoso, frio. Eu me deitei e fiquei sonolento ouvindo música. Dormi quase duas horas. Acordei como se estivesse em casa.

No fim da tarde, ficamos esperando dar o horário para irmos até a casa de Dona Dovalina, onde iria acontecer o encontro do candombe.

DSCN9513 Eu estava ansioso para começar o ensaio para a apresentação de domingo em Jequitibá e esse seria o meu encontro com toda família dos Bianos.

Depois de um tempo, partimos em direção a casa de Dona Dorvalina, com o crepúsculo nublado, o tempo permanecia chuvoso, o terreiro bem molhado, um barro escorregadio e vermelho, provocando uma lama que agarrava na sola dos calçados. Definimos que o encontro sonoro ritualístico iria acontecer às 19 horas,

Na casa do Bianos

Na casa dos Bianos, havia uma expectativa, minha e deles para comigo, também por parte da equipe de documentação que cobria o evento. Entretanto, havia mesmo era a curiosidade vinda de todas as partes.

DSCN9454O encontro com a família dos Bianos foi um episódio mágico e assim podemos dizer que foi um encontro de diásporas. Um afro-nordestino adentrar na família afro-mineira foi para mim muito simbólico e significativo. Aos poucos, as pessoas envolvidas com o Festival e os parentes dos Bianos foram chegando.

A iniciação e a benção de Nossa Senhora do Rosário.

Chegou o momento de celebrar o nosso encontro, batizado de ensaio, nossa reunião de candombe.

A celebração que marcou nosso encontro de Candombe, aconteceu numa quarta-feira, dia de Xangô, 9 de setembro de 2015, às 19 horas, numa varanda com a extensão de toda a frente da casa de cor amarela, casa da Rainha Congo de Baldin, Dorvalina Soares, com a presença de seus filhos, filhas e netos, que foram chegando aos poucos. Também fiquei muito impressionado com a personalidade de seu irmão, o Sr. João Biano que é o capitão da Guarda de Nossa Senhora do Rosário. Um senhor que trazia uma marca forte da vida, uma voz cansada, entretanto, provido de muito conhecimento. Bem-humorado e falante, contou causos, fez revelações, falou de Deus, de morte, durante a conversa ele cunhou esta frase: “o homem começa morrer pelos pés até chegar na cabeça”. Em seguida, falou das mudanças climáticas. Ele chegou acompanhado de sua família que faz parte da guarda. Hoje, ele tem 87 anos e canta algumas vezes, fica observando, faz algumas intervenções durante o calor do candombe, fica assentado, devido o peso da idade. Mas, durante a celebração não resistiu, entrou na roda, cantou e dançou. Sua filha Rosimeire Soares Moreira quem comanda a apresentação do Congado. E foi ela que começou a celebração, rezando para Nossa Senhora do Rosário abençoar todos que estavam ali presentes. Quero ressaltar, como Rosemeire me chamou atenção pelo seu conhecimento, sobretudo, seu envolvimento com a cultura. Uma pessoa muito simpática, bastante comprometida com a continuidade da manifestação e da organização da família. Outra peculiaridade importante que percebi nessa experiência foi a força das mulheres da família Biana. Ao contrário, os homens eram mais calados, observadores e de olhos bem atentos.

Por fim, na noite da minha iniciação com a família dos Bianos houve a presença de muita gente e foi um acontecimento forte, de devoção, cheio de ensinamentos, muito causos, atravessado pelo candombe, coco de roda, congo e versos curtos. Essa passagem me fez lembrar da leitura do livro “O negro e o garimpo em Minas Gerais,” de Aires Mata Machado, quando ele fala das noites de festa: “vão se repetindo os versos, enquanto a dança dura”

 Segundo dia de vivências culturais.

Acordo as 5:45 com os galos cantando.

Fiz uma caminhada pela estrada de barro, já de posse de um relaxamento maior, andei um pouco mais pelo o arraial.

Voltei, tomei banho, fiz a refeição da manhã, uma hora depois fomos para a escola conversar com os meninos, onde desenvolvi várias atividades com os alunos da escola.

A vivência cultural num diálogo com a escola.

Ter ido a escola foi uma experiência bastante desafiadora, gratificante. A minha presença na escola, acompanhado de Almin e a Suellen foi um acontecimento, algo que fez uma intervenção na rotina da escola. Nós fomos recebidos pela diretora da escola que não me lembro do nome, mas que procurou ser bastante simpática. Ela nos deixou a vontade. E isso me tranquilizou, no primeiro momento. A diretora nos ofereceu um lanche logo na chegada. Depois, nós conversamos sobre a escola, as dificuldades, sobre a comunidade quilombola e alfabetização de adultos. Nós estabelecemos como seria a dinâmica com as crianças e as dividimos em grupos.

Já em sala, procurei fazer uma interação e a criar dinâmicas que promovesse um diálogo com as crianças da escola, procurando se descobrir o potencial da criançada e se valorizar a cultura local, fazendo com que eles se reconhecessem em cada atividade.

DSCN9334Realizar esta oficina criativa e de sensibilização na escola Pedro Sarturnino Lopes na comunidade de Lagoa de Trindade para as crianças, foi uma experiência muito interessante e gratificante.

Dei inicio a dinâmica com as crianças de 04 a 06 anos, essa foi uma conversa tranquila e lúdica. Nós brincamos e cantamos, tocamos tambores e toda a escola se envolveu com a dinâmica. Logo, apareceu muita gente envolvida com o Festival Folclorata, o pessoal da produção e o pessoal da documentação.

No segundo momento, realizei outra etapa do encontro na escola com as crianças de 08 a 12 anos. Essa atividade foi muito envolvente. Os menino que participam dos grupos culturais do arraial tocaram e dançaram. Esse momento foi muito emocionante.

Em seguida, passamos na casa de Dona Dorvalina no horário do almoço, ficamos por algum tempo, depois a Raquel nos pegou e fomos almoçar uma feijoada deliciosa feita por Edina.

Depois do almoço dormimos um pouco.

Depois das 18 horas, nós nos preparamos para irmos até a casa do mestre Zé limão e para ver o ensaio da folia de reis e a armação da capina.

Terceiro dia de vivências culturais.

Acordei cedo no mesmo horário de antes.

Nós tomamos café e conversamos um pouco. Nós Saímos em direção à casa de Dona Dovalina. O portão estava fechado, então seguimos em direção ao Rio das Velhas. Lá fizemos uma boa caminhada até chegar ao rio. E ao chegar, ficamos muito decepcionados com a sujeira e o mau cheiro. Mas, mesmo diante de todo quadro de poluição, o rio ostentava sua beleza e força mística.    https://www.youtube.com/watch?v=ohVT63_a3zE

No final da manhã, voltamos para o arraial, passamos pela casa de Dona Dorvalina e ficamos alguns minutos por lá, conversamos e tocamos um pouco. Foi muito divertido.

Momentos depois, já estávamos na casa da Raquel para o almoço. Depois do almoço teve muita conversa. Em seguida ficamos esperando o ônibus e viemos para Jequitibá para ver o início do festival. Foi uma noite divertida.

DSCN9429

Quarto dia de vivências culturais

No quarto dia, segui para Jequitibá para me ajuntar a toda a equipe e aos artistas que estavam participando do festival e para também assistir os shows do festival de folclore. Para isso, fomos num ônibus escolar.

Quinto dia de vivências culturais

Amanheci em Jequitibá e lá realizamos uma reunião de avaliação, debaixo de uma árvore com toda equipe envolvida e que pensaram o projeto, com a presença Ana Beatriz e Geovana Jardim, a segunda ficou bastante emocionada. Essa foi uma reunião, bem envolvente com muita emoção e lágrimas por parte dos artistas e estudantes que participaram das vivências. Depois da reunião, fomos almoçar. Em seguida, parti para o arraial Lagoa de Trindade, o meu retorno foi um reencontro bastante intenso, conheci mais uma filha de dona Dorvalina, uma mulher muito falante e vibrante de olhos fortes bastante expressivos, um traço comum das mulheres da família dos Bianos. Ela estava muito eufórica e ansiosa para apresentação do domingo, falou muito, cantou dançou, contou toda a história da família. DSCN9473Ela cantou, dançou, tocou e falou da história da família para um grupo de vídeo-makers que foram juntos comigo.

Aguardávamos ansiosos a chegada da Rosemeire e seu pai

Depois fizemos outro encontro sonoro acompanhado de toda família. Nesse ensaio estavam presentes todas as filhas dos Bianos, foi um fim de tarde muito expressivo empolgante, apesar de alguns problemas da produção em relação ao transporte.

Sexto dia de vivências culturais

Ao sair do lugar que estava hospedado com a equipe de produção e alguns artistas, resolvi ir até centro da cidade de Jequitibá. Lá tive grata surpresa e me deparei com a Guarda de N. S. do Rosário e Familiares dos Bianos. Esse encontro passou uma sensação maravilhosa de logo cedo receber aquela benção e energia. A guarda estava linda, nesse momento, havia um clima de devoção em toda praça. Entusiasmado, fiz algumas fotos, cumprimentei a todos que pude. Entre eles, havia alguns membros da família que eu ainda não tinha conhecido. E todos foram solícitos, atenciosos comigo. Aquele encontro foi um sinal muito positivo para logo mais nos encontrar no palco e realizar nossa celebração musical.

Rosemeire

Os Bianos e Babilak Bah

Dia 13 de setembro em jequitibá foi um domingo especial com vários grupos culturais da região que se apresentaram. Nesse dia, os grupos alegraram os visitantes com apresentações em torno da tenda principal. A apresentação dos Bianos foi muito linda, carregada de uma energia contagiante. Eles tocaram congo, a manguara e por fim, o candombe. Também me convidaram para se unir ao grupo. Foi quando fiz algumas intervenções sonoras com pífanos e enxadas e também toquei a caixa de folia da guarda. E assim, todos os Bianos ficaram muito envolvidos na apresentação que contagiou a platéia.

BABILAK5 Por fim, eu encerrei a minha participação com esse candombe que compus durante a vivência:

?Eu vim de navio/ Eu de vitória/ Eu quero paz/ Eu quero gloria/

Babilak Bah

Musico, artista visual, arte educador e poeta. Já publicou os livros: Corpoletrado e Vôomiragem

(Belo Horizonte/Setembro de 2015)

Almin BABILAK BABILAK1 BABILAK2 BABILAK3 BABILAK4 BABILAK5 DSCN9227 DSCN9238 DSCN9240 DSCN9246 DSCN9248 DSCN9254 DSCN9258 DSCN9275 DSCN9288 DSCN9297 DSCN9298 DSCN9299 DSCN9303 DSCN9304 DSCN9305 DSCN9311 DSCN9312 DSCN9313 DSCN9315 DSCN9319 DSCN9329 DSCN9332 DSCN9340 DSCN9352 DSCN9359 DSCN9366 DSCN9384 DSCN9390 DSCN9391 DSCN9401 DSCN9429 DSCN9439 DSCN9448 DSCN9454 DSCN9455 DSCN9473 DSCN9491 DSCN9493 DSCN9513 DSCN9516 DSCN9543 DSCN9545 DSCN9566 encontro com os Bianos na igreja do Rosario FOLCLORATA foto antiga com os Bianos Rosemeire

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