Um palhassionista que alegra os espíritos caducos…

Canta Vinicius de Morais que a vida é arte do encontro, sendo assim, fui motivado por uma convergência inesperada, tive a satisfação de conhecer o músico e performer Johnny Herno, no inicio dos anos 2000, na época em que ministrava a Oficina Enxadário: Orquestra de Enxadas. Nosso primeiro diálogo aconteceu no espaço Matriz, em baixo do edifício JK, durante o show da cantora Patrícia Amaral. Lembro-me quando Johnny aproximou-se de mim e me perguntou se eu era o Babilak Bah? Em seguida, fez a segunda pergunta: se tinha condições dele ainda participar da oficina? Conversamos um pouco, e por fim, respondi-lhe que sim e que ele poderia comparecer no próximo encontro da oficina no Centro Cultural Lagoa do Nado. Meio sem acreditar, atônito, disse ele: – Sério? Retruquei: – Quem manda lá sou eu, meu caro, apareça lá.

No dia definido, Johnny apareceu, surpreendeu a todos com sua profusão de sentimentos e “largueza” de espirito.

A partir desse encontro, iniciamos uma amizade traçada pelo signo da cumplicidade artística. Desde então, ele deixou claro sua seriedade, marcou o território com seu talento, definindo o quanto era integral em tudo que procurava realizar. Por outro lado, justo na gratidão com as coisas novas que aprendia, obtinha as atitudes mais nobres, dentre os participantes que chegava a quase trinta. Sua generosidade é algo que transcende a mesquinhez humana, tornando-se uma pessoa de alma leve, elástica, de um enorme magnetismo.

O tempo passou, finalizei o curso da linguagem das enxadas, com uma repercussão muito positiva. Iniciando outros laboratórios sonoros e ambientes investigativos, convidei-o para trabalhar comigo, tornando-se parceiro, um aliado das minhas ideias sonoras, poéticas, sobretudo, um confidente das questões existências/espirituais e estéticas.

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Um indivíduo disposto a colaborar, um motor humano – locomotiva de estímulo, centrado no trabalho para que as coisas andassem com êxito. Firme, inabalável em seu caráter, esbanjando espírito de solidariedade, sóbrio em suas decisões. Confesso, nunca vi uma alma com tanto ajustamento em suas ponderações. Firmeza é o nome do Johnny.

Nas leituras que realizo em Guimarães Rosa, na perspectiva de entender o inconsciente coletivo e o imaginário mineiro, identifico o Johnny com o jagunço Joca Ramiro, forte, firme, temível, ao mesmo tempo, belo e sedutor. Como aborda numa passagem do romance Grande Sertão: Veredas,

“Joca Ramiro é um imperador em três alturas“

No entanto, diante de tanta força de nosso artista Herno, garimpeiro de timbres, perante as trincheiras do mundo da cidade e das disputas no campo da arte, na guerra de egos e das arrogâncias dentro das matilhas competitivas do universo artístico.

Johnny

Gravação do DVD Babilak Bah – 30 anos de carreira, 50 de vida ©netun lima/divulgacao

“A gente tem até medo de que, com tanta aspereza da vida, do sertão, machucasse aquele homem maior, ferisse. E, quando ele saia, o que ficava mais na gente, como agrado em lembrança, era a voz. Uma voz sem pingo de dúvida, nem tristeza. Uma voz que continuava”.

Na atualidade, ver sua produção artística, sendo referenciada, aceita pelo público, enche-me de satisfação, confesso, em parte, já conhecia algumas de suas obras, reveladas pelo artista; quando dividíamos as viagens e o quarto de hotel, entretanto, não me surpreende, porque já conhecia o seu talento, desde o encontro no matriz, ao perceber um jovem talentoso, destemido, afoito as aventuras da criação, com os olhos voltados para os seus objetivos, mesmo diante, de muitas situações desfavoráveis, contudo, com o espírito altivo e disposto à superação.

Nos shows que realizo, com a banda, na qual, ora ele pilota a bateria, ora a percussão, costumo apresenta-lo: como o “Homem Mitológico”, por sua originalidade, espirito profundo. Aliás, diverso e guerreiro, porta-voz de mistério e sensibilidade apurada.

Suas criações são metáforas delirantes, mítico-poéticas, suspiros simbólicos, versos construído sob o prisma da sentimentalidade, telurismo e alta temperatura orgânica, tendo um agudo olhar voltado a dimensão interior, experimentado com coragem, num mergulho que revela as vertebras do cosmo, (de si mesmo).

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Tudo que se emana de suas manifestações, brota de uma verdade absoluta, na busca de forma intensa, do incompreensível, tornando-se vozes múltiplas em diálogo com a sua criação, expondo-se de maneira íntima e universal. Johnny é raiz de estrelas, labareda rara, barro do céu, faísca escura, humano demasiadamente humano. Uma unanimidade entre todos que se deparam com sua aura singular.

Johnny é uma benção revelada no coração de Santa Luzia, às vezes se permite atravessar o belo horizonte da invenção… Foi talhado, fora dos contornos em terreno amplo, a céu aberto. Um palhassionista que alegra os pobres eleva os espíritos caducos, com seus timbres como linguagem…

http://palcomp3.com/johnnyherno/

Babilak Bah

 

 

 

Uma resposta para “Um palhassionista que alegra os espíritos caducos…”

  1. Encontrar babilak bah,foi, e é ! estar na árvore ,com a sombra e o sol,é um silêncio e ao mesmo tempo um supapo,egargalhada e música,sempre respeito ao mestre,seguimos na terra,na missão,obrigado pelas palavras por quase chorei,mas preferi guardalas para ti ,quando juntos sonorizarmos a presença das lagrimas,salve e vida.

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