Markin Cardoso em debate sobre racismo no Cersam AD Pampulha

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Dando início às comemorações dos 10 anos do Cersam AD Pampulha tivemos a felicidade de abrir essa data comemorativa com uma Roda de Conversa com a presença do professor e filósofo Marcos Cardoso, mestre em história social e militante do Movimento Negro. Destinada a usuários em uso abusivo de álcool e outras drogas, a roda de conversa contou ainda com a participação de alguns profissionais da saúde e uma pessoa dos serviços gerais, tendo como tema as problemáticas do racismo e o preconceito racial no Brasil.

O professor Marcos Cardoso iniciou a conversa de maneira informal, deixando todos à vontade, fazendo o diálogo fruir e possibilitando a interação. A princípio o professor fez uma abordagem sobre a história do MNU – Movmento Negro Unificado, contando como surgiu o movimento negro brasileiro, além de destacar algumas situações de racismo que marcaram o surgimento do MNU no Brasil.

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A Roda transcorreu de maneira interessante obtendo uma participação marcante dos usuários, podemos dizer até que de forma surpreendente, pois os participantes tiveram um comportamento diferenciado, deixando-se conduzir pelo assunto, demostrando interesse e profundo envolvimento, apesar de em alguns instantes saírem do tema abordado. No entanto, é importante entendermos que essa ação denota um processo pedagógico de extrema relevância para com essa clientela, como destacou Marcos Cardoso, sobre a importância das atividades de subjetivação cultural no sentido de promover a afirmação das potencialidades individuais e suas identidades.

Cardoso, fundamentado em seu lugar de fala, buscou ampliar o processo de reflexão, procurou desenvolver seu pensamento a partir dos efeitos negativos provocado pelo racismo, destrinchando o preconceito racial na sociedade brasileira, revelando também as nuanças e as estratégias que foram implementadas desde o período colonial até a contemporaneidade. Da mesma forma, apresentou um breve panorama sobre o preconceito institucional, bem como o preconceito linguístico utilizado no cotidiano da sociedade brasileira que reafirma esse preconceito, de forma por vezes inconsciente; o racismo à brasileira, podendo atestar assim.

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A saber, foram também colocadas várias exemplificações sobre: “o negro parado é suspeito correndo é ladrão”. E citou inúmeros exemplos.

Neste momento realizou um breve comentário sobre a atuação da polícia com a comunidade negra, abrindo um questionamento sobre esse imaginário, no qual o sujeito negro é sempre considerado suspeito.

Prosseguindo foi enfático quando fez o recorte sobre a perseguição sofrida pelos grupos minoritários como os indígenas, as mulheres e outros grupos estigmatizados que sofrem discriminação pela cultura hegemônica, machista e homofóbica, evidenciando o racismo sofrido pela população negra, principalmente a oriunda de comunidades da periferia. Consequentemente, a juventude negra discorreu também sobre o adoecimento provocado pela cultura racista, os impactos da intolerância religiosa e das várias formas sutis de preconceitos, colocando o racismo como uma ideologia universal de opressão. Quando foi perguntado se em outros países havia racismo ou preconceitos de cor esclareceu que o racismo está imposto aos povos que saíram da África como escravizados que ajudaram o desenvolvimento econômico e cultural das diásporas, como os Estados Unidos, Caribe, Cuba e América Latina.

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Volto a reiterar a participação dos usuários no processo reflexivo e de análise dessa conjuntura racista apresentada pelo filósofo Marcos Cardoso, sendo protagonistas de perguntas pertinente, mesmo que, por vezes, ao mesmo tempo em que se viam envolvidos na reflexão, às vezes se perdiam com colocações que fugiam da questão debatida, sem deixar de ser interessante o questionamento levantado pelos demais inseridos no contexto da Roda de Conversa, mesmo quando o assunto escapulia da curva discursiva.

Outro dado que merece ressalva, foram os momentos de tensão, como por exemplo quando foram abordados o assunto religioso e os preconceitos atribuídos à religião de matriz africana, sendo um capítulo à parte, dentro da Roda de discursão, no qual a agressividade veio à tona. No entanto, nada soa estranho, entendemos que anjos, orixás e poetas também entram em luta corporal.

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Por fim, quero destacar dois pontos que marcam esse início de comemoração dos 10 anos juntamente com a abertura do ciclo de debates como forma de alfabetização cultural para uma humanização, tanto dos usuários como da nossa equipe.

Primeiro destaque, preocupado com a realização desse evento tive a ideia de guardar todos os colchões, querendo com essa atitude evitar o esvaziamento, sobretudo para não ver os usuários deitados e espalhados pelo salão, procurei dar um caráter mais cerimonioso, estabelecer determinada postura; interferindo no cotidiano desses e do serviço. Portanto, confesso que fiquei apreensivo com a reação dos demais, por ter sugerido que guardassem os colchões, apesar disso foi tranquilo.

Segundo ponto a destacar foi a ponderação realizada por Sanderson Borborema, quando fez afirmativa de que há no Cersam um fenômeno que ele classifica como “coitadismo“ protagonizado pelos usuários. Ele afirma que existe uma potência nesses indivíduos que frequentam o serviço e reiterou que eles precisam fazer do Cersam um ambiente de passagem, mas acaba acontecendo o contrário, findam por se acomodar em função dos vales, da comida e outros ganhos.

Creio que esses usuários nos deram uma chave, um tema que poderíamos discutir numa roda de conversa: o coitadismo dos usuários ou acomodação? Fica aqui a indagação.

No mais, foi uma boa largada para as comemorações dos 10 anos do Cersam AD Pampulha. Cersan vivo – Viva!!!

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Babilak Bah.

Belo Horizonte – Fevereiro de 2018

 

 

 

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