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Relatório dos afetos: o encontro com o universo mito-poético dos Bianos

Posted in Textos sobre cultura on outubro 6, 2015 by babilakbah

Relatório dos afetos: o encontro com o universo mito-poético dos Bianos

“Lá a capela nave sem instrumentos. Nela o que os inspira é a musica os santos no reinado“  Edimilson de Almeida Pereira.

No prefácio do livro: “A Roda Do Mundo“  de Edimilson de Almeida Pereira e Ricardo Aleixo, o antropólogo e poeta Antônio Risério, munido por um olhar extremamente crítico, sobretudo, sem papas na linguagem, sem utilizar de metáforas, afirma: “Em terras das Minas Gerais, onde africanos escravizados comeram o pão que o diabo europeu amassou”. E assim, é enfático ao dizer como viveu o negro nos tempos do ciclo do ouro sob o domínio colonial. Por outro lado, sabemos, que a luta dos negros frente a escravidão foi também a resistência de toda uma cultura para sobreviver, para manter seus elos originais e sua identidade. Esse fato histórico, foi o que testemunhei, recentemente, ao me deparar com uma contradição colossal. Assisti a tudo atravessado pela ótica da geografia critica pensada por Milton Santos, em suas análises das contradições que ocorre entre a modernidade e o território. Diante de tal quadro, pude perceber a realidade que fica apenas a cem quilômetros de Belo Horizonte. Lá presenciei o abandono, em contrapartida, tomei conhecimento do patrimônio cultural do universo banto, ainda conservado por uma família negra conhecida como os Bianos

DSCN9491O encontro de diásporas, formalizado por um negro-nordestino com a afro-mineiridade foi possível devido a provação do Som Afroprogressivo no edital “Seleção de artistas para vivências culturais do projeto Folclorata: Encontro das Culturas Populares de Jequitibá/MG”, através do Instituto Jardim Cultural. A seleção consistia em realizar um show que integrava a programação do Festival do folclore, também participar de um período de vivências culturais junto ás comunidades tradicionais do município de Jequitibá.

Por esse mecanismo, tive a satisfação de conviver durante uma semana na comunidade Quilombola de Lagoa Trindade, na qual, vivenciei uma experiência relevante, no sentido de aprimorar o processo subjetivo, o alargamento das possibilidades de criação, além do aspecto perceptivo, dando-me subsídio para a análise crítica da nossa história. Assim, impulsionado por esse encontro, tento aqui descrever os dias em que vivi com a valiosa cultura, sobretudo, de herança africana, conservada pela família congadeira dos Bianos. Ilustrado com fotos, pequenos vídeos que revelam a delicadeza, a fragilidade, além do universo simbólico, mito-poético-religioso, essencialmente ancestral, do negro no interior de Minas Gerais.

Primeiro dia das vivências culturais.

 Na primeira noite que dormi na Comunidade Quilombola de Lagoa de Trindade, acordei às 05:50 com o céu ainda faiscado de vermelho, fechei os olhos por alguns instantes, contemplei com intensidade aquele lugar no mundo, ao escutar o coral dos galos. Constatei, a compreensão de João Cabral, um galo sozinho não tece uma manhã. Assim como um negro solitário não inaugura um quilombo.

Levantei-me, fui ao quintal, o dono da casa, o Sr. Jatobá, casado com uma Biana, já estava acordado, colocava comida para os pássaros, um canário Belga criado na gaiola, dois cachorros domesticado na corrente, faziam a guarda da casa, denominado, Chiquinho e Pretinho, ambos latiram para mim, creio, dando-me um bom dia. Depois, percebi que havia mais um cachorro, cada um deles criado dentro de um túnel exposto no chão do quintal da charmosa casa. Então, resolvi caminhar um pouco pelo quintal, fui até o portão da frente, tipo uma porteira, abri, e caminhei pela estrada de barro, um barro vermelho, andei uns 300 metros e voltei, fiquei intranquilo, uma suspeita me invadiu, fiquei preocupado de alguém estranhar meu passeio pelo arraial. Voltei, entrei no quarto, li um capítulo do livro: O HOMEM QUE PENSA de Viviane Mosé. Depois fui na cozinha, conversei, tomei café. Fiquei mais de duas horas numa prosa. O tempo chuvoso, permaneceu durante todo dia. A parte da manhã foi demorada, veio a hora do almoço. Foi uma comida simples. No entanto, deliciosa. Comida de Quilombo, angu e frango. Eu bebi uma cachaça para abrir o apetite, dentro da garrafa havia uma raiz. DSCN9248 O almoço foi maravilhoso, uma delícia. Eu, Almin meu filho e a Suelen, uma estudante de antropologia que acompanhava a vivência cultural, todos nós repetimos e comemos além do necessário de tão saborosa era a comida.

Conversamos sobre várias coisas e fiquei curioso como foi feito o angu. Assim perguntei para a Raquel, a dona da casa, e a sua irmã Edna, ambas filhas de filha de Dona Dorvalina. Mas, a Raquel disse-me quem poderia responder melhor, seria a Edna. “Essa é uma cozinheira de mão cheia, muito talentosa com os temperos”. Edna falou como preparou o angu. Porém, não revelou os segredos dos condimentos.

Depois veio a sobremesa, um mousse de morango, acompanhado de doce de laranja e mamão. Nós ampliamos ainda mais a prosa e lá fora transcorria uma fragrância de paz e uma sonoridade de pássaros, cantos de galos, latidos dos cachorros. E de maneira prolongada, passava de vezes em quando um carro bem longe pela estrada, modificando a paisagem e o território.

Eu senti a necessidade de deitar um pouco, coisa que não faço depois do almoço. Então, eu fui me deitar, porque o tempo estava chuvoso, frio. Eu me deitei e fiquei sonolento ouvindo música. Dormi quase duas horas. Acordei como se estivesse em casa.

No fim da tarde, ficamos esperando dar o horário para irmos até a casa de Dona Dovalina, onde iria acontecer o encontro do candombe.

DSCN9513 Eu estava ansioso para começar o ensaio para a apresentação de domingo em Jequitibá e esse seria o meu encontro com toda família dos Bianos.

Depois de um tempo, partimos em direção a casa de Dona Dorvalina, com o crepúsculo nublado, o tempo permanecia chuvoso, o terreiro bem molhado, um barro escorregadio e vermelho, provocando uma lama que agarrava na sola dos calçados. Definimos que o encontro sonoro ritualístico iria acontecer às 19 horas,

Na casa do Bianos

Na casa dos Bianos, havia uma expectativa, minha e deles para comigo, também por parte da equipe de documentação que cobria o evento. Entretanto, havia mesmo era a curiosidade vinda de todas as partes.

DSCN9454O encontro com a família dos Bianos foi um episódio mágico e assim podemos dizer que foi um encontro de diásporas. Um afro-nordestino adentrar na família afro-mineira foi para mim muito simbólico e significativo. Aos poucos, as pessoas envolvidas com o Festival e os parentes dos Bianos foram chegando.

A iniciação e a benção de Nossa Senhora do Rosário.

Chegou o momento de celebrar o nosso encontro, batizado de ensaio, nossa reunião de candombe.

A celebração que marcou nosso encontro de Candombe, aconteceu numa quarta-feira, dia de Xangô, 9 de setembro de 2015, às 19 horas, numa varanda com a extensão de toda a frente da casa de cor amarela, casa da Rainha Congo de Baldin, Dorvalina Soares, com a presença de seus filhos, filhas e netos, que foram chegando aos poucos. Também fiquei muito impressionado com a personalidade de seu irmão, o Sr. João Biano que é o capitão da Guarda de Nossa Senhora do Rosário. Um senhor que trazia uma marca forte da vida, uma voz cansada, entretanto, provido de muito conhecimento. Bem-humorado e falante, contou causos, fez revelações, falou de Deus, de morte, durante a conversa ele cunhou esta frase: “o homem começa morrer pelos pés até chegar na cabeça”. Em seguida, falou das mudanças climáticas. Ele chegou acompanhado de sua família que faz parte da guarda. Hoje, ele tem 87 anos e canta algumas vezes, fica observando, faz algumas intervenções durante o calor do candombe, fica assentado, devido o peso da idade. Mas, durante a celebração não resistiu, entrou na roda, cantou e dançou. Sua filha Rosimeire Soares Moreira quem comanda a apresentação do Congado. E foi ela que começou a celebração, rezando para Nossa Senhora do Rosário abençoar todos que estavam ali presentes. Quero ressaltar, como Rosemeire me chamou atenção pelo seu conhecimento, sobretudo, seu envolvimento com a cultura. Uma pessoa muito simpática, bastante comprometida com a continuidade da manifestação e da organização da família. Outra peculiaridade importante que percebi nessa experiência foi a força das mulheres da família Biana. Ao contrário, os homens eram mais calados, observadores e de olhos bem atentos.

Por fim, na noite da minha iniciação com a família dos Bianos houve a presença de muita gente e foi um acontecimento forte, de devoção, cheio de ensinamentos, muito causos, atravessado pelo candombe, coco de roda, congo e versos curtos. Essa passagem me fez lembrar da leitura do livro “O negro e o garimpo em Minas Gerais,” de Aires Mata Machado, quando ele fala das noites de festa: “vão se repetindo os versos, enquanto a dança dura”

 Segundo dia de vivências culturais.

Acordo as 5:45 com os galos cantando.

Fiz uma caminhada pela estrada de barro, já de posse de um relaxamento maior, andei um pouco mais pelo o arraial.

Voltei, tomei banho, fiz a refeição da manhã, uma hora depois fomos para a escola conversar com os meninos, onde desenvolvi várias atividades com os alunos da escola.

A vivência cultural num diálogo com a escola.

Ter ido a escola foi uma experiência bastante desafiadora, gratificante. A minha presença na escola, acompanhado de Almin e a Suellen foi um acontecimento, algo que fez uma intervenção na rotina da escola. Nós fomos recebidos pela diretora da escola que não me lembro do nome, mas que procurou ser bastante simpática. Ela nos deixou a vontade. E isso me tranquilizou, no primeiro momento. A diretora nos ofereceu um lanche logo na chegada. Depois, nós conversamos sobre a escola, as dificuldades, sobre a comunidade quilombola e alfabetização de adultos. Nós estabelecemos como seria a dinâmica com as crianças e as dividimos em grupos.

Já em sala, procurei fazer uma interação e a criar dinâmicas que promovesse um diálogo com as crianças da escola, procurando se descobrir o potencial da criançada e se valorizar a cultura local, fazendo com que eles se reconhecessem em cada atividade.

DSCN9334Realizar esta oficina criativa e de sensibilização na escola Pedro Sarturnino Lopes na comunidade de Lagoa de Trindade para as crianças, foi uma experiência muito interessante e gratificante.

Dei inicio a dinâmica com as crianças de 04 a 06 anos, essa foi uma conversa tranquila e lúdica. Nós brincamos e cantamos, tocamos tambores e toda a escola se envolveu com a dinâmica. Logo, apareceu muita gente envolvida com o Festival Folclorata, o pessoal da produção e o pessoal da documentação.

No segundo momento, realizei outra etapa do encontro na escola com as crianças de 08 a 12 anos. Essa atividade foi muito envolvente. Os menino que participam dos grupos culturais do arraial tocaram e dançaram. Esse momento foi muito emocionante.

Em seguida, passamos na casa de Dona Dorvalina no horário do almoço, ficamos por algum tempo, depois a Raquel nos pegou e fomos almoçar uma feijoada deliciosa feita por Edina.

Depois do almoço dormimos um pouco.

Depois das 18 horas, nós nos preparamos para irmos até a casa do mestre Zé limão e para ver o ensaio da folia de reis e a armação da capina.

Terceiro dia de vivências culturais.

Acordei cedo no mesmo horário de antes.

Nós tomamos café e conversamos um pouco. Nós Saímos em direção à casa de Dona Dovalina. O portão estava fechado, então seguimos em direção ao Rio das Velhas. Lá fizemos uma boa caminhada até chegar ao rio. E ao chegar, ficamos muito decepcionados com a sujeira e o mau cheiro. Mas, mesmo diante de todo quadro de poluição, o rio ostentava sua beleza e força mística.    https://www.youtube.com/watch?v=ohVT63_a3zE

No final da manhã, voltamos para o arraial, passamos pela casa de Dona Dorvalina e ficamos alguns minutos por lá, conversamos e tocamos um pouco. Foi muito divertido.

Momentos depois, já estávamos na casa da Raquel para o almoço. Depois do almoço teve muita conversa. Em seguida ficamos esperando o ônibus e viemos para Jequitibá para ver o início do festival. Foi uma noite divertida.

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Quarto dia de vivências culturais

No quarto dia, segui para Jequitibá para me ajuntar a toda a equipe e aos artistas que estavam participando do festival e para também assistir os shows do festival de folclore. Para isso, fomos num ônibus escolar.

Quinto dia de vivências culturais

Amanheci em Jequitibá e lá realizamos uma reunião de avaliação, debaixo de uma árvore com toda equipe envolvida e que pensaram o projeto, com a presença Ana Beatriz e Geovana Jardim, a segunda ficou bastante emocionada. Essa foi uma reunião, bem envolvente com muita emoção e lágrimas por parte dos artistas e estudantes que participaram das vivências. Depois da reunião, fomos almoçar. Em seguida, parti para o arraial Lagoa de Trindade, o meu retorno foi um reencontro bastante intenso, conheci mais uma filha de dona Dorvalina, uma mulher muito falante e vibrante de olhos fortes bastante expressivos, um traço comum das mulheres da família dos Bianos. Ela estava muito eufórica e ansiosa para apresentação do domingo, falou muito, cantou dançou, contou toda a história da família. DSCN9473Ela cantou, dançou, tocou e falou da história da família para um grupo de vídeo-makers que foram juntos comigo.

Aguardávamos ansiosos a chegada da Rosemeire e seu pai

Depois fizemos outro encontro sonoro acompanhado de toda família. Nesse ensaio estavam presentes todas as filhas dos Bianos, foi um fim de tarde muito expressivo empolgante, apesar de alguns problemas da produção em relação ao transporte.

Sexto dia de vivências culturais

Ao sair do lugar que estava hospedado com a equipe de produção e alguns artistas, resolvi ir até centro da cidade de Jequitibá. Lá tive grata surpresa e me deparei com a Guarda de N. S. do Rosário e Familiares dos Bianos. Esse encontro passou uma sensação maravilhosa de logo cedo receber aquela benção e energia. A guarda estava linda, nesse momento, havia um clima de devoção em toda praça. Entusiasmado, fiz algumas fotos, cumprimentei a todos que pude. Entre eles, havia alguns membros da família que eu ainda não tinha conhecido. E todos foram solícitos, atenciosos comigo. Aquele encontro foi um sinal muito positivo para logo mais nos encontrar no palco e realizar nossa celebração musical.

Rosemeire

Os Bianos e Babilak Bah

Dia 13 de setembro em jequitibá foi um domingo especial com vários grupos culturais da região que se apresentaram. Nesse dia, os grupos alegraram os visitantes com apresentações em torno da tenda principal. A apresentação dos Bianos foi muito linda, carregada de uma energia contagiante. Eles tocaram congo, a manguara e por fim, o candombe. Também me convidaram para se unir ao grupo. Foi quando fiz algumas intervenções sonoras com pífanos e enxadas e também toquei a caixa de folia da guarda. E assim, todos os Bianos ficaram muito envolvidos na apresentação que contagiou a platéia.

BABILAK5 Por fim, eu encerrei a minha participação com esse candombe que compus durante a vivência:

?Eu vim de navio/ Eu de vitória/ Eu quero paz/ Eu quero gloria/

Babilak Bah

Musico, artista visual, arte educador e poeta. Já publicou os livros: Corpoletrado e Vôomiragem

(Belo Horizonte/Setembro de 2015)

Almin BABILAK BABILAK1 BABILAK2 BABILAK3 BABILAK4 BABILAK5 DSCN9227 DSCN9238 DSCN9240 DSCN9246 DSCN9248 DSCN9254 DSCN9258 DSCN9275 DSCN9288 DSCN9297 DSCN9298 DSCN9299 DSCN9303 DSCN9304 DSCN9305 DSCN9311 DSCN9312 DSCN9313 DSCN9315 DSCN9319 DSCN9329 DSCN9332 DSCN9340 DSCN9352 DSCN9359 DSCN9366 DSCN9384 DSCN9390 DSCN9391 DSCN9401 DSCN9429 DSCN9439 DSCN9448 DSCN9454 DSCN9455 DSCN9473 DSCN9491 DSCN9493 DSCN9513 DSCN9516 DSCN9543 DSCN9545 DSCN9566 encontro com os Bianos na igreja do Rosario FOLCLORATA foto antiga com os Bianos Rosemeire

No travessão da cultura: quem disse que viver o futebol dispensa pensá-lo ?????

Posted in Textos sobre cultura on agosto 29, 2015 by babilakbah

DSCN9162Na autobiografia do trompetista Miles Davis, o genial músico, afirma, teve um certo momento de sua vida, dedicou-se com bastante empenho ao mundo dos esportes. Outro brilhante artista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano, confessa, seu grande sonho era ser jogador de futebol. Na história de nossa música popular brasileira, está cheio de relatos de músicos e compositores que sonharam em jogar futebol. Por outro lado, há evidência, de jogadores que sonharam em ser músicos, tem o caso por exemplo, de Marinho Chagas, lateral esquerdo, que jogou pela seleção brasileira, na copa de 74, chegou a produzir a gravação de um LP: “ Eu sou assim“ (http://sintoniamusikal.blogspot.com.br/2014/06/marinho-eu-sou-assim-cs-1977.html) e a cantar seus amores e desânimos com a vida. O próprio rei do futebol, o Pelé, (http://wp.clicrbs.com.br/podiacki/2013/04/05/sexta-de-musica-craque-nos-campos-pele-ataca-de-cantor-desde-1969/?topo=67,2,18,,,67) também se arriscou pela seara da canção. Creio, há uma relação próxima do mundo da bola e o universo das artes, principalmente, no mundo da música. Na literatura, o escritor e compositor José Miguel Winisk, em Veneno Remédio, cita: Pasolini dizia que o futebol é uma linguagem, e comparava jogadores italianos com escritores seus contemporâneos, vendo analogias entre os estilos e as atitudes inerentes aos seus “discursos”. Mais do que isso, falava, escrevendo em 1971, de um futebol jogado em prosa, predominante na Europa, e de um futebol jogado como poesia, referindo-se ao futebol sul-americano, e, em particular, ao brasileiro. e mais adiante, Winisk, reitera: Os pensadores, por sua vez, à esquerda ou à direita, na meia ou no centro, têm muitas vezes uma reserva contra os componentes antiintelectuais e massivos do futebol, e temem ou se recusam a endossá-los, por um lado, e a se misturar com eles, por outro. Tudo isso, por si só, já daria um belo assunto: o futebol como o nó cego em que a cultura e a sociedade se expõem no seu ponto ao mesmo tempo mais visível e invisível.“ Faço esta longa introdução, com o intuito de fazer uma revelação, na juventude, tive um grande sonho: ser jogador de futebol; com a minha entrada no campo das artes, deixei totalmente o mundo do futebol de lado. De uns tempos para cá, acerca de 6 anos, aconteceu uma aproximação desse mundo que vivi com intensidade na adolescência, voltei a praticar futebol, devido, o nascimento do meu quarto filho: o Tomás, que me trouxe para o mundo do futebol, a principio brincando no quintal, se estendendo até a escola, depois no clube. Portanto, esta experiência tem me proporcionado felicidade, inspiração para a arte e aprendizado na vida, além de saúde e interação com diversas subjetividades.

Quero deixar aqui um convite: no próximo domingo, dia 30/08 de 2015 acontecerá a final do campeonato champions league da AABB – Bh Associação Atlética Banco do Brasil, que será transmitida ao vivo pela equipe da rádio Itatiaia, narração de Enio Lima e Eduardo Madeira.

08:50 horas – Categoria Veterano Bayern de Munique vs Chelsea.

Meu time é Bayern de Munique, jogo com a camisa 19, já marquei um gol no campeonato. Estou tendo um pressentimento, vou levantar a taça, beber um shop e comemorar.

Confira.

Babilak Bah

29 de agosto/2015

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O mestre me atravessa com a magia dos ritmos – Doudou N’diaye Rose.

Posted in Textos sobre cultura on agosto 22, 2015 by babilakbah

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Esta semana na madrugada de quinta-feira tomei conhecimento da morte do famoso músico e percussionista Doudou N’diaye Rose aos 87 anos, mestre do tambor-mor do Senegal e um dos mais célebres músicos africanos. Tornou-se uma célula sonora unindo-se a rítmica das alturas. Classificado pela Unesco de “tesouro humano vivo”. Viverá sempre na lembrança de quem teve um dia a oportunidade de ver de perto seu talento, elegância e maestria.

Para aqueles que não sabe de quem se trata, Doudou N’diaye Coumba Rose era um ‘griô’ – género de músicos que tinham a responsabilidade de preservar e transmitir histórias, fatos históricos, conhecimentos e as canções do seu povo – cantor e compositor da tradição da etnia senegalesa ‘wolof’.

O músico colaborou com grandes nomes da música, como os britânicos Rolling Stones, os americanos Miles Davis e Alpha Blondy, o sul-africano Lucky Dube e o seu conterrâneo Youssou N’Dour. Grande mestre especializado no sabar, o tambor tradicional do Senegal, geralmente tocado com uma só mão e uma baqueta, Doudou N’diaye Rose inventou centenas de novos ritmos, e mesmo alguns novos instrumentos.

Respeitado pela imprensa europeia, em 1991, um artigo do jornal francês Le Monde chamava-lhe “o matemático dos ritmos. Doudou N’diaye Rose trouxe as múltiplas variantes do sabar, verdadeiro instrumento nacional do país, presente em festas familiares e na Igreja, nos comícios políticos e em qualquer banda senegalesa que se preze. Além de ser considerado um dos melhores intérprete do sabar, foi também um notável maestro de percussionistas, chegando a dirigir centenas de músicos. Chamo-o de senhor da polirritmia.

A comunidade artística e o universo percussivo mundial, perdeu uma grande referencia da literatura dos tambores e da musica percussiva.

Sendo de uma família de contadores de historias teve que lutar contra seu pai, um contador, que rejeitava a ideia de ter um filho músico, sendo assim, o grande mestre levou muito a sério a sua arte e o ofício de músico. Segundo suas palavras, explicou: “Eu nunca quis tocar cegamente. Procurei os mais velhos para que eles me ensinassem a língua muito específica da percussão: como anunciar que há um incêndio florestal, quando uma cobra morde alguém, que a esposa que acaba de se casar entrou na residência marital e que seu marido é satisfeito com ela”.

Há uma informação de que o mestre do sabar tenha gerado uma extensa prole que, segundo diversas fontes, se situará entre os 38 e os 42 filhos, Doudou N’diaye Rose pôde ainda fundar, recorrendo apenas à sua descendência e aos que se juntaram à família pelo casamento, os Drummers of West Africa, um dos mais respeitados grupos de percussão do mundo.

Eu o conheci em 92, tive o privilegio de fazer uma oficina com ele no Teatro Castro Alves em Salvador pelo Perc-Pam Mundial. E assisti o seu show acompanhado por vinte filhos no mesmo teatro, Ainda me lembro e me emociono quando Nana Vasconcelos anunciou seu nome, com vocês o mestre: Doudou N’diaye Rose. O teatro veio abaixo.

O mestre me atravessa com a magia dos ritmos.

Baabilak Bah.

A poeta e a ilha no oceano da palavra.

Posted in Textos sobre cultura on agosto 18, 2015 by babilakbah

2Na minha passagem recentemente pelo o interior da Bahia, fiquei sabendo do falecimento de alguns amigos do campo das artes e do universo da poesia. Desde então, fiquei atravessado pelo anseio de escrever um artigo que discursasse sobre poesia e morte. Não necessariamente nessa ordem. No entanto, antes de me enveredar pelo cemitério das ponderações, saliento: a vida dos anônimos é algo que me fascina, desperta interesse.

O entusiasmo se multiplica quando o ilustre desconhecido trata-se de um poeta. E nesta abordagem torna-se um assunto de relevância. Apesar do desconforto, quando se trata de refletir sobre a morte desse notório anônimo: figura idealista que morreu acreditando em seu sonho e objetivo artístico. Contudo, este mergulho, pelo curso da escrita, alinha-se a uma aventura desfavorável pelo tamanho do incômodo.

8360280231_5840eafd10_bA reflexão perpassa o território do infortúnio que é falar de um artista falecido, inserido na geração, na qual, você faz parte. Sinto tal situação como um sonho que vai minando, ruindo, desabando por terra. Nesse processo reflexivo, a gente também desfalece, junto com cada poeta que morre. Não morre a escrita, morre seu decifrador. O poeta faz a sua escolha. É sabido, nem todos são escolhidos pela poesia. E para aquele que recebe esse chamado, é necessário coragem para assumir tal condição: ser poeta.

Entretanto, debruçar-se sobre a vida de um poeta é algo prazeroso, estimulante e desafiador… por mais insignificante que pareça ser a sua produção. Portanto, quero falar da poeta Ângela Toledo, poeta que teve sua grandeza de espirito entre os mortais, provocadora e preocupada na construção de um mundo melhor. Uma artista profundamente envolvida em seu personagem: ao seu imaginário criador.

A poeta natural do Rio de Janeiro, desde a adolescência, descobriu o que afirma Roland Barthes nos Fragmentos do Discurso Amoroso: “ A palavra é de uma tênue substância química que produz as mais violentas alterações”. Na juventude, migrou-se para a capital soteropolitana, onde conviveu com vários poetas. A partir de então, resolveu ser empreendedora de seu imaginário. E assim, teve sua vida dedicada a poesia, ao mundo da palavra, com elas construiu uma atitude poética existencial que merece estudo e admiração, até mesmo de outras artes.3(Angela Toledo realizando uma performance ao lado do poeta José Inácio Vieira de Melo)

Não construiu uma obra poética de destaque que gerasse interesse da crítica literária ou de outros curiosos por versos e poemas. Em contrapartida, Ângela Toledo, poeta e performer, sacerdotisa da palavra como a definiu certa vez, o compositor e poeta Jorge Mautner. Movida pelo amor a poesia, utilizou de vários suportes, no sentido de difundir a sua voz na poesia feminina: fez cartão poesia, camiseta, cartaz poema, livro e ainda idealizou a casa da poesia, articulou a mostra de poesia, realizou intervenções. Ela fez dos poucos muros das pousadas de morro de São Paulo um painel, estabelecendo-se nesta mídia, de tijolos, cal e cimento, uma possibilidade para estampar sua poética. E desta forma, promovendo inúmeras reflexões estéticas e sócias para os moradores, transeuntes e turistas da ilha.

8Eu a conheci quando morava no início dos anos 90, no Morro de São Paulo-BA. A poeta, abandonou a república do consumo, a metrópole das vaidades. Desse modo, resolveu construir e atuar com a palavra na pequena ilha, numa vida solitária, sem filho, marido, onde seu romance amoroso se dava com o universo da palavra. Militante por justiça social, realizava trabalho de educação ambiental com crianças. As vezes, atuava como atriz e vendia seus “inutensílios poéticos” na feirinha Hippie.

SILÊNCIO

Tem silêncio em mim,

que não me deixa nem

silenciosamente escrever.

Tem um silêncio em mim,

que ninguém consegue ver

que se perde em si próprio

de tanto se saber.

Tem um silêncio em mim, que

se guarda e se separa,

que se acalma, mas não pára,

que se esconde mas não se cala.

Tem um silêncio em mim,

que nem sei de onde vem:

talvez venha de alguém

e se guarde não sei prá quem. (Ângela Toledo)

Ãngela Toledo e crianças - Morro de São PauloViva o eterno silêncio de Angela Toledo, a poeta da ilha no oceano da palavra.

Fotos não sei os autores.

Babilak Bah

Uma leitura necessária da História¡¡¡¡¡¡

Posted in Textos sobre cultura on junho 19, 2015 by babilakbah

Uma leitura necessária da História¡¡¡¡¡

DSCN8528Envolvido numa leitura histórica que me tem gerado impacto e me provoca reflexões, tem sido angustiante e esclarecedor o mergulho neste livro: No imaginário da Intolerância. Da Inquisição ao ensino (não) religioso, do historiador Carlos André Cavalcanti. O autor faz um estudo sobre a Santa Inquisição e a intolerância do Tribunal do Santo Oficio numa abordagem renovada e atualizando a questões da intolerância religiosa para a contemporaneidade.

Numa passagem descrita pelo autor deparei-me com este fato ocorrido em Minas Gerais:

Luzia Pinta era uma escrava alforriada natural de Angola. Foi presa em Sabará, Minas, em 1742. Foi acusada de ser feiticeira calundureira, como na abertura das denunciações do seuprocesso, que é típica de quase todos eles.    

Pela denunciação inclusa conta que Luizia pinta preta forra natural de Angola e moradora junto a capela de N. Sra. da Soledade na vizinhança de Vila de Sabará (hé)(…) por feiticeira, fazendo aparições diabólicas por meyo de humas danças, a que chama calundu(…) com grande escândalo dos fies catholicos, e por que hé conveniente a justiça se faça.

No transcorrer dessa historia e fim desse inquérito Luzia Pinta é condenada.

DSCN8527Luzia Pinta foi degredada para o Conto de Castro Marim em 1744.havia sido acusada de estar “apartada da Santa Fé Catholica e ter pacto co o demônio por cuja intervenção fazia curas com operações supersticiosas e improprias para os fins que pretendia, jactandose ter virtude de Deos para obrar o referido“

Um livro interessante e curioso escrito sobre a teoria do imaginário trazendo um tema tão antigo e novo para o pensamento critico contemporâneo.

Vale a pena ler, refletir sobre os meandros históricos da intolerância e os incômodos da inquisição.

Babilak Bah.

 

O direito à cultura – um direito de todos

Posted in Textos sobre cultura on junho 17, 2015 by babilakbah

DSCN8523Boa tarde a todos e todas. Queria primeiro agradecer o convite ao militante, articulador das questões em saúde mental em nosso meio, o professor e amigo Paulo Amarante, um grande inspirador para todos nós que aventuramos por este campo. Quero também agradecer aos organizadores do 2º Fórum Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental. Evento esse que é organizado pela Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME com o tema “Direito às Diversidades: Cidades, Territórios e Cidadania”. Por conseguinte, dizer também da satisfação de estar aqui com vocês, na cidade de João Pessoa que é meu berço onde frutificou o broto seminal de minha vida. É uma satisfação também reencontrar amigos e pessoas comprometidas com uma nova sociedade, podemos dizer assim; com a construção de um novo mundo. Em segundo lugar, eu queria  fazer um elogio à abordagem desta mesa e do fórum que abre a perspectiva de inúmeras leituras e possibilidade de reflexão critica com esta tríade temática: cidades, território e cidadania. Sobretudo pela amplitude de problematização  que esse assunto nos provoca, espero que eu consiga corresponder com as expectativas e com este chamado.

Quero ressaltar que o meu interesse pela loucura aconteceu quando eu morava aqui ainda em João Pessoa.  Quando criança atravessava Avenida Duque de Caxias com minha mãe, deparei-me com um personagem que ilustra os grandes vultos da Paraíba: para quem não sabe foi Maria Isabel Bandeira, conhecida pela alcunha de “Vassoura“(http://paraibanos.com/joaopessoa/urbanos.htm), uma louca que andava de cavalo pela cidade desfraldando a bandeira do Brasil, entrava em todos os lugares dessa cidade, um verdadeiro ícone cultural, para mim é a criadora da performance na Paraíba, ou seja, sendo preciso em João Pessoa.  Depois outro louco que perambulava por essa cidade me chamava bastante atenção. Conhecido por João Rasga Rua(http://www.portaldolitoralpb.com.br/velho-do-saco-ou-antonio-rasga-rua-personagem-da-cidade-tem-documentario-veja/), o próprio tornou-se protagonista de um documentário produzido pelo poeta Águia Mendes com trilha sonora do compositor e articulador do movimento cultural Jaguaribe Carne Pedro Osmar.

signo4Esses dois acontecimentos na minha infância e na adolescência foram marcantes e motivos suficientes que despertaram o meu interesse pelo fenômeno da loucura.

Então, o que eu pensei abordar está pautado na minha experiência de vida, na observação, na prática artística, sobretudo dentro do serviço substitutivo em saúde mental em dois dispositivos de saúde pública e antimanicomial: O Centro de Convivência Venda Nova e o do bairro Providência ambos localizados na região periférica de Belo Horizonte.   Esse trabalho culminou em várias iniciativas bem sucedidas no campo da linguagem e signos artísticos e experiência inter-semíotica com o universo da loucura junto aos portadores de sofrimento mental que perpassa um período de 13 anos, favorecendo o nascimento do grupo musical Trem Tan Tan.

trem tan tan sambabilolado e outro stan tansE é a partir da experiência com o Trem Tan Tan, que vou ilustrar esta fala: o Trem Tan Tan é um grupo musical com uma historia artística invejável, de certa forma, muito interessante, traz em sua história a realização de dois CDs autorais e recentemente gravou o seu primeiro DVD:  “Sambabilolado e outros tan tans.” O Trem Tan Tan é fruto de um trabalho que somente foi possível devido uma rede do serviço substitutivo na cidade de BH que tem uma rede organizada, forte comprometida e militante que objetiva o desmonte da malha manicomial, e o louco sendo tratado em liberdade. Essa nova cultura de tratamento psiquiátrico vem sendo bem sucedida no estado e com grande êxito, apesar de muitas lutas. E não poderia ser de outra forma.

Mas, eu fui convidado para  falar sobre o tema: DIREITOS HUMANOS COMO CONSTRUÇÃO CULTURAL: IMPLICAÇÕES PARA A EMANCIPAÇÃO DE SUJEITOS DE DIREITOS.

Sim, tudo isto que estou falando ate aqui se trata de uma introdução para se chegar ao tema proposto pelo fórum. No entanto, falar de DIREITOS HUMANOS COMO CONSTRUÇÃO CULTURAL: IMPLICAÇÕES PARA A EMANCIPAÇÃO DE SUJEITOS DE DIREITOS foi todo o trabalho que desenvolvi com o grupo Trem Tan Tan e os portadores de sofrimento mental nesse período de trabalho, marcado pela militância com a saúde e com os direitos humanos, sobretudo, o envolvimento com a vida.

Segundo Pedro Gabriel, ex-coordenador de saúde mental no período do governo Lula, “hoje o desafio da reforma psiquiátrica são três pilares fundamentais: os direitos humanos, a geração de renda e a cultura”.

De acordo com Pedro Gabriel, “a reforma psiquiátrica já teve um grande êxito apesar das  ameaças de um bloco conservador que tenta abalar as conquistas do movimento da reforma psiquiátrica”. Creio-me que, devemos entender o momento político atual e que nos coloca numa dinâmica bastante retrógrada e num movimento de atraso das conquistas sociais, como a terceirização, a redução da maioridade penal e um conjunto de medidas que marcam um retrocesso pelo o congresso nacional, com um levante de uma direita que TENTA SE ERGUER nos últimos tempos.

trem tan tan 2Mas é sobre o Trem da Cidadania que quero abordar? Sim, e é dele que quero falar e aprofundar as questões de direitos e cultura. Dar meu depoimento como artista e coordenador de um grupo cultural veiculado ao campo da saúde. Vou aqui fazer algumas proposições alicerçadas em minha vivência na luta antimanicomial. Creio que seja necessária e urgente a reciclagem desse movimento.  Assim como a reforma psiquiátrica tornou-se um bloco politico bastante politizado, reivindicativo e combatente, devemos na atualidade também tomarmos consciência do valor da cultura como possibilidade de inclusão. A cultura como possibilidade de geração de renda. A cultura como perspectiva de desenvolvimento humano. E incorporar a cultura, ao dinamismo permanente de criação de vida. Porque fazer cultura e arte na saúde mental é extremamente transgressor, desafiante. Essa atitude artística está além do código estético, da dimensão simbólica. A cultura aqui é a cultura  marcada pela vida.

Eu vejo isto na prática, tanto na vida pessoal, como no trabalho que é desenvolvido com o Trem Tan Tan e no serviço substitutivo pelos companheiros artistas e outros profissionais que estão veiculado nesta causa.

Portanto, creio que devemos colocar a questão da loucura em todos os âmbitos da vida cultural, dentro das escolas, nas universidades e em clubes, como assunto cotidiano para que possamos promover a reflexão e o conhecimento dessa questão. Porque o desconhecimento é total por parte da sociedade, quando se fala em saúde mental ou loucura.  (https://www.youtube.com/watch?v=HRxPgHnOW7M0)

Vou ilustrar aqui um pequeno fato e bastante significativo, Veja a pouco, ou seja, a semana passada, produzimos o DVD do Trem Tan Tan, que foi uma experiência bem sucedida. Pela primeira vez; conseguimos inserir o Trem Tan Tan na programação cultural da cidade de Belo Horizonte, integrando ao 6º Festival de Arte  Negra. Isso foi um avanço incrível para o grupo entrar pela primeira vez numa agenda, que não fosse uma agenda da saúde. Isso somente foi possível porque conseguimos realizar esta produção devido a um projeto aprovado pela lei de incentivo, patrocinado pelo fundo municipal de cultura. E para isso acontecer, contratamos um conjunto de profissionais, entre eles um assessor de imprensa para fazer a divulgação do nosso trabalho. Assim, vivemos aí uma experiência incrível com a imprensa local.

Entretanto houve uma mudança de comportamento de nossa parte que ajuda na coordenação do grupo, antes era eu que falava em nome desse coletivo. Porém, de maneira proposital e sistemática, mudamos essa lógica. Desse modo, colocamos um usuário, componente do grupo para ser o porta-voz. Essa atitude  foi muito importante, porque precisávamos criar um nome, produzir um empreendedor, (criar) APOIAR ESTANDO JUNTO /SECRETARIAR numa perspectiva (DA PSICANÁLISE) uma figura que falasse e assinasse os projetos do Trem Tan Tan. Nós tínhamos essa dificuldade, porque os projetos culturais relacionados à lei de incentivo não poderiam ir no meu nome, eu já entrava com os meus projetos pessoais. Então, colocamos o Mauro Camilo à frente de todas as entrevistas. Também, dialogamos com ele na perspectiva dele se tornar esse sujeito, porta-voz. E saber lidar com a imprensa, tanto escrita, radiofônica e televisiva. Entretanto, vocês precisavam ver o despreparo da imprensa ao lidar com um empreendedor, portador de sofrimento psíquico, falando do projeto cultural, do processo de criação, do propósito estético do grupo. Fundamentado nessa experiência que digo e percebo o despreparo da imprensa, da sociedade. Vendo essa realidade que eu digo que é necessário estarmos em todos os lugares, nas universidades, nas escolas e outros ambiente da vida social. Levando essa pauta e promovendo essa reflexão, diluindo o paradigma do louco incompetente, derrubando estes estereótipos para criarmos uma nova visão da loucura, tendo como suporte a criação artística, o produto cultural realizados por eles.

abertura da falaNão tenho dúvida, afirmo é necessário no momento a realização de uma cartografia cultural da loucura hoje no Brasil. Eu de maneira assistemática e voluntária venho realizando um levantamento dos grupos musicais que existem hoje no país dentro da saúde mental. Dessa maneira, consegui até escrever um projeto de lei de incentivo para produzir o 1º Festival de Musica Doida em Belo Horizonte. Entretanto, não consegui um patrocinador para realização desse evento. Mas, realizar este festival e reunir esta produção é um grande sonho meu. Eu sinto que essa proposta é urgente e essencial para, a partir dai, exigirmos políticas para este setor cultural, dentro do campo da saúde mental, favorecendo esses agentes e criadores.

Não é uma aberração o que vou dizer: temos outro manicômio que precisaremos derrubar que são os muros do preconceito erguido no campo da cultura. É preciso se criar uma rede cultural da saúde mental e utilizar a tecnologia como aliada nesse processo de articulação. E ao mesmo tempo, prepararmos os usuários e os técnicos com a finalidade de ocuparmos esse espaço, as redes sociais e a cidade. Como afirma o antropólogo Muniz Sodré:  “ O território é sempre sagrado… Território é onde há hálito, respiração,”  é onde acontece a iniciação do sujeito. Seja para o sagrado ou para profano, neste sentido, o importante é a vida girar. Dar continuidade ao movimento.

a oficinaPortanto, para essa empreitada há a necessidade de estabelecermos diálogo com os setores de Cultura de cada município, com as secretarias de estado e também no âmbito federal. E consequentemente, criarmos políticas que favoreçam os criadores culturais dentro do campo da saúde mental. Assim sendo, é importante também criarmos editais, residência, festivais, cursos, oficinas, fóruns e colocarmos a produção desses novos agentes culturais na agenda cultural de suas respectivas cidades. Estabelecendo-se, ao longo desses processos, frequentes diálogos com a comunidade artística.

Finalizo por aqui e na sequência ao abrir o debate, posso colocar outros pontos, como também tirar dúvidas.

Por fim, viva o dom da criação e todo santo sem sanidade.

Muito obrigado.

Babilak Bah.

Junho de 2013

Duas obras: dois amigos.

Posted in Textos sobre cultura on junho 16, 2015 by babilakbah

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Na minha passagem pela Paraíba tive a felicidade de conhecer dois ilustres escritores comprometidos com a historia, com os diretos humanos e o desenvolvimento social, além de intelectuais de alto quilate que são Carlos André Cavalcanti e Wilson Prudente. Conheci ambos no Fórum Direitos Humanos e Saúde Mental compondo uma mesa cujo a discussão neste dia era muito interessante: Diversidade, direitos humanos e etnia.

Carlos André Cavalcanti é professor da Universidade Federal da Paraíba com doutorado sobre a santa inquisição, atua no ensino e na pesquisa nos níveis de graduação e Pós-Graduação nas áreas de ciências  e histórias das religiões.

Wilson Prudente, é procurador do ministério público do trabalho, lotado na procuradoria Regional do trabalho, onde atua no núcleo dos direitos da personalidade do trabalhador, especializado no combate a todas as formas de descriminação no mercado de trabalho.

Tive o prazer de ter longas conversas com os dois escritores e realizarmos a troca de nossos produtos culturais e livros, regado a um diálogo rico num belíssimo café de João Pessoa.

Carlos André me impressiona com seu livro lançado primeiro no mercado editorial português. No imaginário da intolerância. Da inquisição ao ensino (não)religioso

Obra que faz uma abordagem sobre a santa inquisição e a intolerância religiosa e afirma que nossos comportamentos foram moldados por esta instituição religiosa.

Numa passagem do livro o escritor, diz: “toda atitude que investiga para punir torna-se uma atitude inquisitorial. Pode-se eleger que isto se dá em função da marca deixada pelo tribunal do santo oficio nas mentes e nos procedimentos“.

Wilson Pudente,  com o livro: A Verdadeira Historia do Direito Constitucional no Brasil .  desconstruindo o direito do opressor, construindo um direito do oprimido.

Obra de fôlego e coragem, numa passagem o escritor afirma:

o fato é que esses diferentes mecanismo de hierarquização social, ao longo de toda a república, tem mudado a sua roupagem para ganhar ares de modernidade. A roupa mais recente, destes velhos mecanismo de hierarquização social, tem sido o próprio principio jurídico da igualdade formal. Frente a sociedade brasileira, os ilustrados arautos do andar de cima respondem com formulas mágicas, de que no Brasil não existe desigualdades, porque todos são iguais perante a lei.

Aqui disponho as capas dos respectivos livros.

No momento enriqueço-me no mergulho em ambas obras de Carlos André Cavalcanti e Wilson Prudente.

Babilak Bah.