Archive for the Textos sobre cultura Category

Poesia – inutensílio útil à alma.

Posted in Textos sobre cultura on abril 25, 2015 by babilakbah

 

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Há uma crença no mundo da arte literária, que a poesia não é para quem a procura, mas para quem ela escolhe. Parece-me ser o caso de dois ilustres poetas: Clarissa Macedo e José Inácio Vieira de Melo, ambos escolhidos pela deusa da palavra para serem semeadores de miragens e inutensílios úteis à alma.

Esta semana, tive acesso às obras poéticas: Na pata do cavalo há sete abismos, de Clarissa Macedo e O Galope de Ulisses, de José Inácio Vieira de Melo. Livros de alto quilate artístico, finíssimo acabamento, projeto gráfico de muito bom gosto, sem falar do refinamento na composição dos poemas.

Cavalguei por horas com Clarissa, decifrando “Na pata do cavalo há sete abismos”; percorri paisagens de lirismo, nos campos da senhora poesia, cai em reflexão diante de poemas que se aproximam da filosofia e questionam sobre o mundo e as coisas da vida. Clarissa surge como a grande revelação da poesia baiana, ganhadora do Prêmio Nacional de Poesia da Academia de Letra da Bahia, em 2013 (ABL). Como a nova voz da poesia contemporânea, Clarissa, tem a palavra certa para seu “cataclismo.

“Encantado é o cavalo que não lê jornais

Que não tem conta em banco, que não

dirige, mas galopa léguas de terra

conhece melhor o amor e ignora a guerra.“

No Galope de Ulisses, coletânea  que reúne a produção poética de José Inácio, chega-nos com gosto de sertão, faz a travessia de uma palavra madurada, fruto de silêncio e rebuscamento na lida com a pedra, sobretudo, com os outonos da existência. O poeta, tráz suas lembranças para o corpo do poema, que refina o espírito e educa a percepção: galopar na infância é a sua metafísica.

“Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor.

Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência

E desperte a vontade de plantar pedras em outras cabeças”.

Num galope duplo, por trincheiras líricas e belas metáforas, percebi uma aproximação estilística entre Clarissa Macedo e Vieira de Melo; ambos não se arriscam em transgressão de linguagens, nem neologismos ou visualidades com a letra. Não há nos poetas em questão nenhum tipo de experimentalismo, mas o que conta é o exercício do verso, sendo assim. O que os dois poetas produzem é extremamente pensado, sentido, construído com esmero e justeza,  pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, num desenho extremamente lógico. Fica entendido: poeta que se preza, busca com muita precisão, simplesmente, a poesia.

Não sendo de outro modo, li nos poetas: ampliaram-me a visão, povoaram-me os sentidos, fazendo-me atravessar ruínas que se abriam na palma da minha mão. Entendi, a natureza do poeta é cavalgar horizontes numa escuta dos abismos.

Na pata do cavalo há sete abismos e O Galope de Ulisses são duas leituras recomendáveis para quem aprecia a poesia.

Adquira-os. Galope para dentro do redemoinho e desvende os sete abismos de Ulisses, antes que o mundo mostre os seus ferrões.

“Despidos de crinas que não se reconhecem

Cravados de marcas de ferro

Fugidos pela palha que nega o que desejam

Mortos pelas pirâmides que migraram

Surdos pela sinfonia que não se nomeia

Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas

Vivos pelas correntes que berram astros

… assim são os cavalos de concerto de meu coração

crianças que preparam o primeiro verso,

feras que não se sujeitam”.

Sobre os autores:

Clarissa Macedo soteropolitana (BA) radicada em Feira de Santana.É licenciada em letras vernácula ( UEFS) mestre em Literatura e diversidade cultural pela mesma universidade, doutora em Literatura e cultura pela UFBA.

José Inácio Vieira de Melo alagoano radicado na Bahia, poeta, jornalista e produtor cultural. Coordenador e curador de vários eventos literários, como Porto da Poesia, 7ª Bienal do Livro da Bahia entre outros. Tem poemas traduzidos para os idiomas: espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês.

Babilak Bah.

 

 

 

 

Madame Satã e todo dom da vida.

Posted in Textos sobre cultura on abril 12, 2015 by babilakbah

Madame Satã e todo dom da vida.

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O criador do Teatro Experimental do Negro, Abdias do Nasciemento estivesse vivo e assistisse a peça “Madame Satã” um musical que protagoniza a biografia de um dos mais peculiares personagens brasileiros, aquele que carregou a alcunha de primeiro travesti do Brasil. Assim como eu tive; ontem o privilegio de testemunhar este espetáculo poético sobretudo político que retrata de maneira metafórica a historia de muitos brasileiros, colocando em cena um tema que se torna invisível nas discussões políticas junto aos nossos parlamentares e instituições. Tenho certeza, que o Abdias sairia do Teatro Cine – Horto altamente emocionado como saiu a platéia neste sábado de abril, em um tempo de retrocesso político: terceirização, redução da maioridade penal e golpe contra a democracia.

Madame satã um espetáculo teatral de alto nível técnico, talento transbordante, formado por um grupo de artistas de alta qualidade. Um teatro musical com belíssimas cenas, um texto limpo, claro, esclarecedor, politizado em consonância com as idéias do Teatro Experimental do Negro com o objetivo de estimular a criação de novos textos, que sirvam aos seus propósitos. Sua diretriz é a temática ligada à situação do negro contendo a poética da corporeidade e elementos da cultura afro-religiosa perpassando a crítica social.

Madame Satã, sendo personagem escolhida pelo Grupo dos Dez para falar de um universo invisível: a prostituição, a pobreza, o racismo, a homofobia, a transfobia e toda a violência de uma sociedade hipócrita e calada frente ao preconceito e à intolerância vem marcar um momento muito importante para a cultura em Minas Gerais e no Brasil mediante as ameaças aos direitos civis que atravessamos na atualidade.

A trilha sonora é original, é um texto a parte, contendo instrumentos harmônicos e percussivos, permeado por vozes e canto numa afinação impecável que contribuem para uma riquíssima dramaturgia numa agradável escuta e sensações de hibridismo poético sonoro.

Quem não assistiu ainda este espetáculo, está perdendo um grande momento da cultura em Belo Horizonte, e testemunhar a afirmação, o talento de um grupo de artista afro-brasileiros comprometidos com a historia, com a arte sobretudo com a vida.

Eu fui, sai feliz, afetado pelo dom da vida, pela beleza – atravessado pela reflexão.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO

Direção Geral: João das Neves e Rodrigo Jerônimo

Direção Musical: Bia Nogueira

Dramaturgia: Marcos Fábio de Faria e Rodrigo Jerônimo (Sob orientação de João das Neves)

Arranjo Musical: Alysson Salvador

Preparação Rítmica: Daniel Guedes

Preparação Corporal: Benjamin Abras

Iluminação: João das Neves

Cabelo e maquiagem: Xisto Lopes

Cenário e figurino: Cicero Miranda e Débora Alves

Assistente de cenário e figurino: João Paulo Sousa e Rodrigo Ianni

Confecção de sapatos: Helênio Lima

Equipe de apoio figurino: Ana Maria Faleiro e Zilanda Barroso

Elenco: Allysson Salvador, Bia Nogueira, Daniel Guedes, Denilson Tourinho, Evandro Nunes, Flor Bevacqua, Gabriel Coupe, Julia Dias, Kátia Aracelle, Laís Lacôrte, Nath Rodrigues, Rodrigo Ferrari, Rodrigo Jerônimo, Thiago

A foto:

Não encontrei o autor. Peço desculpas.

Babilak Bah

Um presente para a minha biblioteca sobre saúde mental – Franco Basaglia

Posted in Textos sobre cultura on março 6, 2015 by babilakbah

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Um presente para a minha biblioteca sobre saúde mental e a Reforma Psiquiátrica, este belo livro – trata-se de uma coletânea que reúne alguns entre os melhores trabalhos de Franco Basaglia, um dos mais importantes e conhecidos psiquiatras do século XX. Basaglia foi mentor e personagem da mais radical e profunda transformação da instituição e do saber e psiquiátricos, que ocorreu originalmente na Itália mas teve expressivas repercussões em todo o mundo, e, muito particularmente, no Brasil.

Nesta obra contem artigos que vão desde as primeiras reflexões, como aquelas realizadas no âmbito do processo de desmontagem do Hospital Psiquiátrico de Gorizia, até os relatos e fundamentos das práticas bem sucedidas de Trieste e análises críticas da lei italiana de reforma psiquiátrica, hoje conhecida como “Lei Basaglia”.

Sobre o autor.

Franco Basaglia nasceu em Veneza em 1924 e faleceu em 1980, nessa mesma cidade. Escreveu e organizou um bom número de livros e publicou cerca de duzentos artigos e capítulos. Liderou as experiências de Gorizia (de 1961 a 1968) e de Trieste (de 1971 a 1979), e a criação do movimento da Psiquiatria Democrática Italiana.

Esteve pela primeira vez no Brasil em 1978, ano da aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica italiana, e retornou em 1979, esteve em Minas Gerais e visitou Barbacena considerando o hospital um campo de concentração.

Realizou conferências e encontros em vários estados do país. Suas visitas ao Brasil foram fundamentais para o desenvolvimento das políticas inovadoras no campo da saúde mental e da reforma psiquiátrica Brasileira.

Um poeta em doelo.

Posted in Textos sobre cultura on fevereiro 25, 2015 by babilakbah

Um poeta em doelo.
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Tive a satisfação de ler na semana passada o livro: doelo do poeta Marcos Fabrício Lopes da Silva.

Li e reli com atenção, fui tomado por um prazer tranquilo que me inundou de sorrisos, me povoou de imagens, provocando-me largueza no espírito. O Poeta fala de coisas simples, captura momentos que passa despercebido, quando a normalidade é dividida por dois pelos viventes. Traz para o campo do sentido, a poética das situações comuns, flagra instantes preciosos do cotidiano, percebe lances da vida corriqueira com potência criativa, recheado de humor. Ao ler o doelo, o leitor tem a certeza de que o poeta Marco Fabrício é uma grafia firme que não nega o chão que pisa, no entanto, tudo que cai em sua cabeça ou atravessa seu campo de visão vira poema: o banal é incorporado pela poesia.

Em um doelo constante com seu outro, o poeta, tem o hábito de:

Urubuservar,
enxergar o buraco que há
na moldura do olhar.

Desta forma, revela micro-mundos de delicadeza, desperta sentidos como alguém que se atreve a traduzir signos simplório da vida e, através da linguagem sempre se lança a pensar, construir pontes de contatos entre os pontos de vista de seu eu poético embalado por uma crítica social, denuncia uma sociedade dominada pelo:

PITBULL DE MICROFONE cabelo engomado com terno sem ternura todo engravatado.

O poeta Marcos, marcado com um papo reto, poemas curtos, silencia a curva do pensamento com metáforas que as vezes parece flash publicitário. No entanto, o poeta afirma:

medo não são placa de pare,
mas de atenção:
siga melhor,

e conclui:

o homem precisa voar para saber melhor andar.

Melhor bye, bye
Do que me deixar
De stand by.

Marcos é um poeta que se veste de livro, seu texto é tão próximo da oralidade que o doelo conversa com leitores abertos.

Sobre o autor:

Marcos Fabrício Lopes da Silva.
Nasceu em Brasília. Formado em jornalismo, pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) o poeta afro-brasileiro é doutor em literatura Brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor universitário pelas faculdades Forttium e JK, ambas no Distrito Federal.

Babilak Bah.
Musico, poeta e arteeducador.

Finalizar um livro e uma imensa felicidade: O Alerquim da pauliceia

Posted in Textos sobre cultura on novembro 8, 2014 by babilakbah

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Ontem cheguei ao fim do livro: Arlequim da Pauliceia: a imagem de São Paulo na poesia de Mario de Andrade. Finalizar um livro e uma imensa felicidade.

Os dois últimos parágrafos do livro:

Assim diante do rio que se degrada, com alma e símbolo da própria cidade, o poeta depõe as armas de seu canto. Nas águas oleosas e escura, que representam o destino errado da cidade, o eu lírico mergulha e se entrega, encerrando solenemente sua eterna busca, sua utópica poética. Esse mergulho é um rito sacrificial, é o simbólico retorno ao elemento original, a água fundadora da vida e da cidade.

Nesse seu último lance de dados, o poeta transforma sua eterna busca de identidade num símbolo, incorporando-se à massa física da cidade por meio do mergulho lírico nas águas do pai Tietê. As figuras representativas do sentimento do poeta fundem-se na aqui-imagem de sua obra poética: Mario-rio-cidade, Mariocidade, São Paulo.

Ao finalizar a leitura fiquei com questão: se Mario de Andrade estivesse vivo hoje, como iria vivencia a crise de água da cidade de São Paulo, que impacto teria em sua poética?

Babilak Bah

Rever e ouvir Itamar Assumpção.

Posted in Textos sobre cultura on abril 15, 2014 by babilakbah

Rever e ouvir Itamar Assumpção.

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Sempre bom rever e ouvir Itamar Assumpção, sua figura emblemática, sua fala grave cheia de sabedoria e radicalidade.
Há dias, medito sobre as falas de Assumpção que ele proferiu no Programa Ensaio, não precisamente nessa ordem com está nesse escrito.
Mas vamos direto ao ponto. O autor de Beleléu, diz: aqui no Brasil as pessoas ficam dizendo que são brancas, eu estive na Alemanha lá vi o que é ser branco, aqui todos são mestiços. Depois tive a oportunidade de ir África, e lá vi tudo preto, e eu não estou acostumado com isto. E conclui: meu olhos sentem necessidade da diversidade.
E o programa vai seguindo com Assumpção fazendo revelações maravilhosas sobre a vida e sua visão de mundo.
Aborda sobre a família, a relação com pai, seu encontro com o candomblé, a influencia dessa religião em sua musica e transcorre por outros assuntos duros e outros bons de se ouvir.
Dentre as inúmera pérolas que Itamar despeja no programa:
Ele diz: tem alguns que não tem esta coisa da harmonia e outros, o lance é o ritmo, a batida forte.
Minha musica é esta onda de ritmo sobreposto, não tem uma classificação: não faço samba, samba eu deixo para Paulinho da Viola e Martinho da Vila.
Não tenho esta necessidade de buscar as minhas origens.
Saber que meus ancestrais vieram da África isto já me basta.
Eu não tenho esta preocupação de ficar rico a qualquer custo, minha preocupação é realizar a minha missão de ser artista – minha musica já me dá muito trabalho.
Há dias estas palavras me desarmonizam – fazendo-me pensar com a identificação.

Babilak Bah.

Johnny Herno – na Malasia

Posted in Textos sobre cultura on abril 14, 2014 by babilakbah

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O Homem Mitológico – a forma como eu gosto de defini-lo, o amigo, Johnny Herno musico talentoso e de uma personalidade extraordinária. Mostrar seu talento em um festival na Malásia. Sucesso camarada e boa vibrações.
Confira o talento do Johny Herno: http://palcomp3.com/johnnyherno/

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