Archive for the Textos sobre cultura Category

O mestre me atravessa com a magia dos ritmos – Doudou N’diaye Rose.

Posted in Textos sobre cultura on agosto 22, 2015 by babilakbah

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Esta semana na madrugada de quinta-feira tomei conhecimento da morte do famoso músico e percussionista Doudou N’diaye Rose aos 87 anos, mestre do tambor-mor do Senegal e um dos mais célebres músicos africanos. Tornou-se uma célula sonora unindo-se a rítmica das alturas. Classificado pela Unesco de “tesouro humano vivo”. Viverá sempre na lembrança de quem teve um dia a oportunidade de ver de perto seu talento, elegância e maestria.

Para aqueles que não sabe de quem se trata, Doudou N’diaye Coumba Rose era um ‘griô’ – género de músicos que tinham a responsabilidade de preservar e transmitir histórias, fatos históricos, conhecimentos e as canções do seu povo – cantor e compositor da tradição da etnia senegalesa ‘wolof’.

O músico colaborou com grandes nomes da música, como os britânicos Rolling Stones, os americanos Miles Davis e Alpha Blondy, o sul-africano Lucky Dube e o seu conterrâneo Youssou N’Dour. Grande mestre especializado no sabar, o tambor tradicional do Senegal, geralmente tocado com uma só mão e uma baqueta, Doudou N’diaye Rose inventou centenas de novos ritmos, e mesmo alguns novos instrumentos.

Respeitado pela imprensa europeia, em 1991, um artigo do jornal francês Le Monde chamava-lhe “o matemático dos ritmos. Doudou N’diaye Rose trouxe as múltiplas variantes do sabar, verdadeiro instrumento nacional do país, presente em festas familiares e na Igreja, nos comícios políticos e em qualquer banda senegalesa que se preze. Além de ser considerado um dos melhores intérprete do sabar, foi também um notável maestro de percussionistas, chegando a dirigir centenas de músicos. Chamo-o de senhor da polirritmia.

A comunidade artística e o universo percussivo mundial, perdeu uma grande referencia da literatura dos tambores e da musica percussiva.

Sendo de uma família de contadores de historias teve que lutar contra seu pai, um contador, que rejeitava a ideia de ter um filho músico, sendo assim, o grande mestre levou muito a sério a sua arte e o ofício de músico. Segundo suas palavras, explicou: “Eu nunca quis tocar cegamente. Procurei os mais velhos para que eles me ensinassem a língua muito específica da percussão: como anunciar que há um incêndio florestal, quando uma cobra morde alguém, que a esposa que acaba de se casar entrou na residência marital e que seu marido é satisfeito com ela”.

Há uma informação de que o mestre do sabar tenha gerado uma extensa prole que, segundo diversas fontes, se situará entre os 38 e os 42 filhos, Doudou N’diaye Rose pôde ainda fundar, recorrendo apenas à sua descendência e aos que se juntaram à família pelo casamento, os Drummers of West Africa, um dos mais respeitados grupos de percussão do mundo.

Eu o conheci em 92, tive o privilegio de fazer uma oficina com ele no Teatro Castro Alves em Salvador pelo Perc-Pam Mundial. E assisti o seu show acompanhado por vinte filhos no mesmo teatro, Ainda me lembro e me emociono quando Nana Vasconcelos anunciou seu nome, com vocês o mestre: Doudou N’diaye Rose. O teatro veio abaixo.

O mestre me atravessa com a magia dos ritmos.

Baabilak Bah.

A poeta e a ilha no oceano da palavra.

Posted in Textos sobre cultura on agosto 18, 2015 by babilakbah

2Na minha passagem recentemente pelo o interior da Bahia, fiquei sabendo do falecimento de alguns amigos do campo das artes e do universo da poesia. Desde então, fiquei atravessado pelo anseio de escrever um artigo que discursasse sobre poesia e morte. Não necessariamente nessa ordem. No entanto, antes de me enveredar pelo cemitério das ponderações, saliento: a vida dos anônimos é algo que me fascina, desperta interesse.

O entusiasmo se multiplica quando o ilustre desconhecido trata-se de um poeta. E nesta abordagem torna-se um assunto de relevância. Apesar do desconforto, quando se trata de refletir sobre a morte desse notório anônimo: figura idealista que morreu acreditando em seu sonho e objetivo artístico. Contudo, este mergulho, pelo curso da escrita, alinha-se a uma aventura desfavorável pelo tamanho do incômodo.

8360280231_5840eafd10_bA reflexão perpassa o território do infortúnio que é falar de um artista falecido, inserido na geração, na qual, você faz parte. Sinto tal situação como um sonho que vai minando, ruindo, desabando por terra. Nesse processo reflexivo, a gente também desfalece, junto com cada poeta que morre. Não morre a escrita, morre seu decifrador. O poeta faz a sua escolha. É sabido, nem todos são escolhidos pela poesia. E para aquele que recebe esse chamado, é necessário coragem para assumir tal condição: ser poeta.

Entretanto, debruçar-se sobre a vida de um poeta é algo prazeroso, estimulante e desafiador… por mais insignificante que pareça ser a sua produção. Portanto, quero falar da poeta Ângela Toledo, poeta que teve sua grandeza de espirito entre os mortais, provocadora e preocupada na construção de um mundo melhor. Uma artista profundamente envolvida em seu personagem: ao seu imaginário criador.

A poeta natural do Rio de Janeiro, desde a adolescência, descobriu o que afirma Roland Barthes nos Fragmentos do Discurso Amoroso: “ A palavra é de uma tênue substância química que produz as mais violentas alterações”. Na juventude, migrou-se para a capital soteropolitana, onde conviveu com vários poetas. A partir de então, resolveu ser empreendedora de seu imaginário. E assim, teve sua vida dedicada a poesia, ao mundo da palavra, com elas construiu uma atitude poética existencial que merece estudo e admiração, até mesmo de outras artes.3(Angela Toledo realizando uma performance ao lado do poeta José Inácio Vieira de Melo)

Não construiu uma obra poética de destaque que gerasse interesse da crítica literária ou de outros curiosos por versos e poemas. Em contrapartida, Ângela Toledo, poeta e performer, sacerdotisa da palavra como a definiu certa vez, o compositor e poeta Jorge Mautner. Movida pelo amor a poesia, utilizou de vários suportes, no sentido de difundir a sua voz na poesia feminina: fez cartão poesia, camiseta, cartaz poema, livro e ainda idealizou a casa da poesia, articulou a mostra de poesia, realizou intervenções. Ela fez dos poucos muros das pousadas de morro de São Paulo um painel, estabelecendo-se nesta mídia, de tijolos, cal e cimento, uma possibilidade para estampar sua poética. E desta forma, promovendo inúmeras reflexões estéticas e sócias para os moradores, transeuntes e turistas da ilha.

8Eu a conheci quando morava no início dos anos 90, no Morro de São Paulo-BA. A poeta, abandonou a república do consumo, a metrópole das vaidades. Desse modo, resolveu construir e atuar com a palavra na pequena ilha, numa vida solitária, sem filho, marido, onde seu romance amoroso se dava com o universo da palavra. Militante por justiça social, realizava trabalho de educação ambiental com crianças. As vezes, atuava como atriz e vendia seus “inutensílios poéticos” na feirinha Hippie.

SILÊNCIO

Tem silêncio em mim,

que não me deixa nem

silenciosamente escrever.

Tem um silêncio em mim,

que ninguém consegue ver

que se perde em si próprio

de tanto se saber.

Tem um silêncio em mim, que

se guarda e se separa,

que se acalma, mas não pára,

que se esconde mas não se cala.

Tem um silêncio em mim,

que nem sei de onde vem:

talvez venha de alguém

e se guarde não sei prá quem. (Ângela Toledo)

Ãngela Toledo e crianças - Morro de São PauloViva o eterno silêncio de Angela Toledo, a poeta da ilha no oceano da palavra.

Fotos não sei os autores.

Babilak Bah

Uma leitura necessária da História¡¡¡¡¡¡

Posted in Textos sobre cultura on junho 19, 2015 by babilakbah

Uma leitura necessária da História¡¡¡¡¡

DSCN8528Envolvido numa leitura histórica que me tem gerado impacto e me provoca reflexões, tem sido angustiante e esclarecedor o mergulho neste livro: No imaginário da Intolerância. Da Inquisição ao ensino (não) religioso, do historiador Carlos André Cavalcanti. O autor faz um estudo sobre a Santa Inquisição e a intolerância do Tribunal do Santo Oficio numa abordagem renovada e atualizando a questões da intolerância religiosa para a contemporaneidade.

Numa passagem descrita pelo autor deparei-me com este fato ocorrido em Minas Gerais:

Luzia Pinta era uma escrava alforriada natural de Angola. Foi presa em Sabará, Minas, em 1742. Foi acusada de ser feiticeira calundureira, como na abertura das denunciações do seuprocesso, que é típica de quase todos eles.    

Pela denunciação inclusa conta que Luizia pinta preta forra natural de Angola e moradora junto a capela de N. Sra. da Soledade na vizinhança de Vila de Sabará (hé)(…) por feiticeira, fazendo aparições diabólicas por meyo de humas danças, a que chama calundu(…) com grande escândalo dos fies catholicos, e por que hé conveniente a justiça se faça.

No transcorrer dessa historia e fim desse inquérito Luzia Pinta é condenada.

DSCN8527Luzia Pinta foi degredada para o Conto de Castro Marim em 1744.havia sido acusada de estar “apartada da Santa Fé Catholica e ter pacto co o demônio por cuja intervenção fazia curas com operações supersticiosas e improprias para os fins que pretendia, jactandose ter virtude de Deos para obrar o referido“

Um livro interessante e curioso escrito sobre a teoria do imaginário trazendo um tema tão antigo e novo para o pensamento critico contemporâneo.

Vale a pena ler, refletir sobre os meandros históricos da intolerância e os incômodos da inquisição.

Babilak Bah.

 

O direito à cultura – um direito de todos

Posted in Textos sobre cultura on junho 17, 2015 by babilakbah

DSCN8523Boa tarde a todos e todas. Queria primeiro agradecer o convite ao militante, articulador das questões em saúde mental em nosso meio, o professor e amigo Paulo Amarante, um grande inspirador para todos nós que aventuramos por este campo. Quero também agradecer aos organizadores do 2º Fórum Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental. Evento esse que é organizado pela Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME com o tema “Direito às Diversidades: Cidades, Territórios e Cidadania”. Por conseguinte, dizer também da satisfação de estar aqui com vocês, na cidade de João Pessoa que é meu berço onde frutificou o broto seminal de minha vida. É uma satisfação também reencontrar amigos e pessoas comprometidas com uma nova sociedade, podemos dizer assim; com a construção de um novo mundo. Em segundo lugar, eu queria  fazer um elogio à abordagem desta mesa e do fórum que abre a perspectiva de inúmeras leituras e possibilidade de reflexão critica com esta tríade temática: cidades, território e cidadania. Sobretudo pela amplitude de problematização  que esse assunto nos provoca, espero que eu consiga corresponder com as expectativas e com este chamado.

Quero ressaltar que o meu interesse pela loucura aconteceu quando eu morava aqui ainda em João Pessoa.  Quando criança atravessava Avenida Duque de Caxias com minha mãe, deparei-me com um personagem que ilustra os grandes vultos da Paraíba: para quem não sabe foi Maria Isabel Bandeira, conhecida pela alcunha de “Vassoura“(http://paraibanos.com/joaopessoa/urbanos.htm), uma louca que andava de cavalo pela cidade desfraldando a bandeira do Brasil, entrava em todos os lugares dessa cidade, um verdadeiro ícone cultural, para mim é a criadora da performance na Paraíba, ou seja, sendo preciso em João Pessoa.  Depois outro louco que perambulava por essa cidade me chamava bastante atenção. Conhecido por João Rasga Rua(http://www.portaldolitoralpb.com.br/velho-do-saco-ou-antonio-rasga-rua-personagem-da-cidade-tem-documentario-veja/), o próprio tornou-se protagonista de um documentário produzido pelo poeta Águia Mendes com trilha sonora do compositor e articulador do movimento cultural Jaguaribe Carne Pedro Osmar.

signo4Esses dois acontecimentos na minha infância e na adolescência foram marcantes e motivos suficientes que despertaram o meu interesse pelo fenômeno da loucura.

Então, o que eu pensei abordar está pautado na minha experiência de vida, na observação, na prática artística, sobretudo dentro do serviço substitutivo em saúde mental em dois dispositivos de saúde pública e antimanicomial: O Centro de Convivência Venda Nova e o do bairro Providência ambos localizados na região periférica de Belo Horizonte.   Esse trabalho culminou em várias iniciativas bem sucedidas no campo da linguagem e signos artísticos e experiência inter-semíotica com o universo da loucura junto aos portadores de sofrimento mental que perpassa um período de 13 anos, favorecendo o nascimento do grupo musical Trem Tan Tan.

trem tan tan sambabilolado e outro stan tansE é a partir da experiência com o Trem Tan Tan, que vou ilustrar esta fala: o Trem Tan Tan é um grupo musical com uma historia artística invejável, de certa forma, muito interessante, traz em sua história a realização de dois CDs autorais e recentemente gravou o seu primeiro DVD:  “Sambabilolado e outros tan tans.” O Trem Tan Tan é fruto de um trabalho que somente foi possível devido uma rede do serviço substitutivo na cidade de BH que tem uma rede organizada, forte comprometida e militante que objetiva o desmonte da malha manicomial, e o louco sendo tratado em liberdade. Essa nova cultura de tratamento psiquiátrico vem sendo bem sucedida no estado e com grande êxito, apesar de muitas lutas. E não poderia ser de outra forma.

Mas, eu fui convidado para  falar sobre o tema: DIREITOS HUMANOS COMO CONSTRUÇÃO CULTURAL: IMPLICAÇÕES PARA A EMANCIPAÇÃO DE SUJEITOS DE DIREITOS.

Sim, tudo isto que estou falando ate aqui se trata de uma introdução para se chegar ao tema proposto pelo fórum. No entanto, falar de DIREITOS HUMANOS COMO CONSTRUÇÃO CULTURAL: IMPLICAÇÕES PARA A EMANCIPAÇÃO DE SUJEITOS DE DIREITOS foi todo o trabalho que desenvolvi com o grupo Trem Tan Tan e os portadores de sofrimento mental nesse período de trabalho, marcado pela militância com a saúde e com os direitos humanos, sobretudo, o envolvimento com a vida.

Segundo Pedro Gabriel, ex-coordenador de saúde mental no período do governo Lula, “hoje o desafio da reforma psiquiátrica são três pilares fundamentais: os direitos humanos, a geração de renda e a cultura”.

De acordo com Pedro Gabriel, “a reforma psiquiátrica já teve um grande êxito apesar das  ameaças de um bloco conservador que tenta abalar as conquistas do movimento da reforma psiquiátrica”. Creio-me que, devemos entender o momento político atual e que nos coloca numa dinâmica bastante retrógrada e num movimento de atraso das conquistas sociais, como a terceirização, a redução da maioridade penal e um conjunto de medidas que marcam um retrocesso pelo o congresso nacional, com um levante de uma direita que TENTA SE ERGUER nos últimos tempos.

trem tan tan 2Mas é sobre o Trem da Cidadania que quero abordar? Sim, e é dele que quero falar e aprofundar as questões de direitos e cultura. Dar meu depoimento como artista e coordenador de um grupo cultural veiculado ao campo da saúde. Vou aqui fazer algumas proposições alicerçadas em minha vivência na luta antimanicomial. Creio que seja necessária e urgente a reciclagem desse movimento.  Assim como a reforma psiquiátrica tornou-se um bloco politico bastante politizado, reivindicativo e combatente, devemos na atualidade também tomarmos consciência do valor da cultura como possibilidade de inclusão. A cultura como possibilidade de geração de renda. A cultura como perspectiva de desenvolvimento humano. E incorporar a cultura, ao dinamismo permanente de criação de vida. Porque fazer cultura e arte na saúde mental é extremamente transgressor, desafiante. Essa atitude artística está além do código estético, da dimensão simbólica. A cultura aqui é a cultura  marcada pela vida.

Eu vejo isto na prática, tanto na vida pessoal, como no trabalho que é desenvolvido com o Trem Tan Tan e no serviço substitutivo pelos companheiros artistas e outros profissionais que estão veiculado nesta causa.

Portanto, creio que devemos colocar a questão da loucura em todos os âmbitos da vida cultural, dentro das escolas, nas universidades e em clubes, como assunto cotidiano para que possamos promover a reflexão e o conhecimento dessa questão. Porque o desconhecimento é total por parte da sociedade, quando se fala em saúde mental ou loucura.  (https://www.youtube.com/watch?v=HRxPgHnOW7M0)

Vou ilustrar aqui um pequeno fato e bastante significativo, Veja a pouco, ou seja, a semana passada, produzimos o DVD do Trem Tan Tan, que foi uma experiência bem sucedida. Pela primeira vez; conseguimos inserir o Trem Tan Tan na programação cultural da cidade de Belo Horizonte, integrando ao 6º Festival de Arte  Negra. Isso foi um avanço incrível para o grupo entrar pela primeira vez numa agenda, que não fosse uma agenda da saúde. Isso somente foi possível porque conseguimos realizar esta produção devido a um projeto aprovado pela lei de incentivo, patrocinado pelo fundo municipal de cultura. E para isso acontecer, contratamos um conjunto de profissionais, entre eles um assessor de imprensa para fazer a divulgação do nosso trabalho. Assim, vivemos aí uma experiência incrível com a imprensa local.

Entretanto houve uma mudança de comportamento de nossa parte que ajuda na coordenação do grupo, antes era eu que falava em nome desse coletivo. Porém, de maneira proposital e sistemática, mudamos essa lógica. Desse modo, colocamos um usuário, componente do grupo para ser o porta-voz. Essa atitude  foi muito importante, porque precisávamos criar um nome, produzir um empreendedor, (criar) APOIAR ESTANDO JUNTO /SECRETARIAR numa perspectiva (DA PSICANÁLISE) uma figura que falasse e assinasse os projetos do Trem Tan Tan. Nós tínhamos essa dificuldade, porque os projetos culturais relacionados à lei de incentivo não poderiam ir no meu nome, eu já entrava com os meus projetos pessoais. Então, colocamos o Mauro Camilo à frente de todas as entrevistas. Também, dialogamos com ele na perspectiva dele se tornar esse sujeito, porta-voz. E saber lidar com a imprensa, tanto escrita, radiofônica e televisiva. Entretanto, vocês precisavam ver o despreparo da imprensa ao lidar com um empreendedor, portador de sofrimento psíquico, falando do projeto cultural, do processo de criação, do propósito estético do grupo. Fundamentado nessa experiência que digo e percebo o despreparo da imprensa, da sociedade. Vendo essa realidade que eu digo que é necessário estarmos em todos os lugares, nas universidades, nas escolas e outros ambiente da vida social. Levando essa pauta e promovendo essa reflexão, diluindo o paradigma do louco incompetente, derrubando estes estereótipos para criarmos uma nova visão da loucura, tendo como suporte a criação artística, o produto cultural realizados por eles.

abertura da falaNão tenho dúvida, afirmo é necessário no momento a realização de uma cartografia cultural da loucura hoje no Brasil. Eu de maneira assistemática e voluntária venho realizando um levantamento dos grupos musicais que existem hoje no país dentro da saúde mental. Dessa maneira, consegui até escrever um projeto de lei de incentivo para produzir o 1º Festival de Musica Doida em Belo Horizonte. Entretanto, não consegui um patrocinador para realização desse evento. Mas, realizar este festival e reunir esta produção é um grande sonho meu. Eu sinto que essa proposta é urgente e essencial para, a partir dai, exigirmos políticas para este setor cultural, dentro do campo da saúde mental, favorecendo esses agentes e criadores.

Não é uma aberração o que vou dizer: temos outro manicômio que precisaremos derrubar que são os muros do preconceito erguido no campo da cultura. É preciso se criar uma rede cultural da saúde mental e utilizar a tecnologia como aliada nesse processo de articulação. E ao mesmo tempo, prepararmos os usuários e os técnicos com a finalidade de ocuparmos esse espaço, as redes sociais e a cidade. Como afirma o antropólogo Muniz Sodré:  “ O território é sempre sagrado… Território é onde há hálito, respiração,”  é onde acontece a iniciação do sujeito. Seja para o sagrado ou para profano, neste sentido, o importante é a vida girar. Dar continuidade ao movimento.

a oficinaPortanto, para essa empreitada há a necessidade de estabelecermos diálogo com os setores de Cultura de cada município, com as secretarias de estado e também no âmbito federal. E consequentemente, criarmos políticas que favoreçam os criadores culturais dentro do campo da saúde mental. Assim sendo, é importante também criarmos editais, residência, festivais, cursos, oficinas, fóruns e colocarmos a produção desses novos agentes culturais na agenda cultural de suas respectivas cidades. Estabelecendo-se, ao longo desses processos, frequentes diálogos com a comunidade artística.

Finalizo por aqui e na sequência ao abrir o debate, posso colocar outros pontos, como também tirar dúvidas.

Por fim, viva o dom da criação e todo santo sem sanidade.

Muito obrigado.

Babilak Bah.

Junho de 2013

Duas obras: dois amigos.

Posted in Textos sobre cultura on junho 16, 2015 by babilakbah

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Na minha passagem pela Paraíba tive a felicidade de conhecer dois ilustres escritores comprometidos com a historia, com os diretos humanos e o desenvolvimento social, além de intelectuais de alto quilate que são Carlos André Cavalcanti e Wilson Prudente. Conheci ambos no Fórum Direitos Humanos e Saúde Mental compondo uma mesa cujo a discussão neste dia era muito interessante: Diversidade, direitos humanos e etnia.

Carlos André Cavalcanti é professor da Universidade Federal da Paraíba com doutorado sobre a santa inquisição, atua no ensino e na pesquisa nos níveis de graduação e Pós-Graduação nas áreas de ciências  e histórias das religiões.

Wilson Prudente, é procurador do ministério público do trabalho, lotado na procuradoria Regional do trabalho, onde atua no núcleo dos direitos da personalidade do trabalhador, especializado no combate a todas as formas de descriminação no mercado de trabalho.

Tive o prazer de ter longas conversas com os dois escritores e realizarmos a troca de nossos produtos culturais e livros, regado a um diálogo rico num belíssimo café de João Pessoa.

Carlos André me impressiona com seu livro lançado primeiro no mercado editorial português. No imaginário da intolerância. Da inquisição ao ensino (não)religioso

Obra que faz uma abordagem sobre a santa inquisição e a intolerância religiosa e afirma que nossos comportamentos foram moldados por esta instituição religiosa.

Numa passagem do livro o escritor, diz: “toda atitude que investiga para punir torna-se uma atitude inquisitorial. Pode-se eleger que isto se dá em função da marca deixada pelo tribunal do santo oficio nas mentes e nos procedimentos“.

Wilson Pudente,  com o livro: A Verdadeira Historia do Direito Constitucional no Brasil .  desconstruindo o direito do opressor, construindo um direito do oprimido.

Obra de fôlego e coragem, numa passagem o escritor afirma:

o fato é que esses diferentes mecanismo de hierarquização social, ao longo de toda a república, tem mudado a sua roupagem para ganhar ares de modernidade. A roupa mais recente, destes velhos mecanismo de hierarquização social, tem sido o próprio principio jurídico da igualdade formal. Frente a sociedade brasileira, os ilustrados arautos do andar de cima respondem com formulas mágicas, de que no Brasil não existe desigualdades, porque todos são iguais perante a lei.

Aqui disponho as capas dos respectivos livros.

No momento enriqueço-me no mergulho em ambas obras de Carlos André Cavalcanti e Wilson Prudente.

Babilak Bah.

 

 

 

Poesia – inutensílio útil à alma.

Posted in Textos sobre cultura on abril 25, 2015 by babilakbah

 

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Há uma crença no mundo da arte literária, que a poesia não é para quem a procura, mas para quem ela escolhe. Parece-me ser o caso de dois ilustres poetas: Clarissa Macedo e José Inácio Vieira de Melo, ambos escolhidos pela deusa da palavra para serem semeadores de miragens e inutensílios úteis à alma.

Esta semana, tive acesso às obras poéticas: Na pata do cavalo há sete abismos, de Clarissa Macedo e O Galope de Ulisses, de José Inácio Vieira de Melo. Livros de alto quilate artístico, finíssimo acabamento, projeto gráfico de muito bom gosto, sem falar do refinamento na composição dos poemas.

Cavalguei por horas com Clarissa, decifrando “Na pata do cavalo há sete abismos”; percorri paisagens de lirismo, nos campos da senhora poesia, cai em reflexão diante de poemas que se aproximam da filosofia e questionam sobre o mundo e as coisas da vida. Clarissa surge como a grande revelação da poesia baiana, ganhadora do Prêmio Nacional de Poesia da Academia de Letra da Bahia, em 2013 (ABL). Como a nova voz da poesia contemporânea, Clarissa, tem a palavra certa para seu “cataclismo.

“Encantado é o cavalo que não lê jornais

Que não tem conta em banco, que não

dirige, mas galopa léguas de terra

conhece melhor o amor e ignora a guerra.“

No Galope de Ulisses, coletânea  que reúne a produção poética de José Inácio, chega-nos com gosto de sertão, faz a travessia de uma palavra madurada, fruto de silêncio e rebuscamento na lida com a pedra, sobretudo, com os outonos da existência. O poeta, tráz suas lembranças para o corpo do poema, que refina o espírito e educa a percepção: galopar na infância é a sua metafísica.

“Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor.

Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência

E desperte a vontade de plantar pedras em outras cabeças”.

Num galope duplo, por trincheiras líricas e belas metáforas, percebi uma aproximação estilística entre Clarissa Macedo e Vieira de Melo; ambos não se arriscam em transgressão de linguagens, nem neologismos ou visualidades com a letra. Não há nos poetas em questão nenhum tipo de experimentalismo, mas o que conta é o exercício do verso, sendo assim. O que os dois poetas produzem é extremamente pensado, sentido, construído com esmero e justeza,  pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, num desenho extremamente lógico. Fica entendido: poeta que se preza, busca com muita precisão, simplesmente, a poesia.

Não sendo de outro modo, li nos poetas: ampliaram-me a visão, povoaram-me os sentidos, fazendo-me atravessar ruínas que se abriam na palma da minha mão. Entendi, a natureza do poeta é cavalgar horizontes numa escuta dos abismos.

Na pata do cavalo há sete abismos e O Galope de Ulisses são duas leituras recomendáveis para quem aprecia a poesia.

Adquira-os. Galope para dentro do redemoinho e desvende os sete abismos de Ulisses, antes que o mundo mostre os seus ferrões.

“Despidos de crinas que não se reconhecem

Cravados de marcas de ferro

Fugidos pela palha que nega o que desejam

Mortos pelas pirâmides que migraram

Surdos pela sinfonia que não se nomeia

Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas

Vivos pelas correntes que berram astros

… assim são os cavalos de concerto de meu coração

crianças que preparam o primeiro verso,

feras que não se sujeitam”.

Sobre os autores:

Clarissa Macedo soteropolitana (BA) radicada em Feira de Santana.É licenciada em letras vernácula ( UEFS) mestre em Literatura e diversidade cultural pela mesma universidade, doutora em Literatura e cultura pela UFBA.

José Inácio Vieira de Melo alagoano radicado na Bahia, poeta, jornalista e produtor cultural. Coordenador e curador de vários eventos literários, como Porto da Poesia, 7ª Bienal do Livro da Bahia entre outros. Tem poemas traduzidos para os idiomas: espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês.

Babilak Bah.

 

 

 

 

Madame Satã e todo dom da vida.

Posted in Textos sobre cultura on abril 12, 2015 by babilakbah

Madame Satã e todo dom da vida.

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O criador do Teatro Experimental do Negro, Abdias do Nasciemento estivesse vivo e assistisse a peça “Madame Satã” um musical que protagoniza a biografia de um dos mais peculiares personagens brasileiros, aquele que carregou a alcunha de primeiro travesti do Brasil. Assim como eu tive; ontem o privilegio de testemunhar este espetáculo poético sobretudo político que retrata de maneira metafórica a historia de muitos brasileiros, colocando em cena um tema que se torna invisível nas discussões políticas junto aos nossos parlamentares e instituições. Tenho certeza, que o Abdias sairia do Teatro Cine – Horto altamente emocionado como saiu a platéia neste sábado de abril, em um tempo de retrocesso político: terceirização, redução da maioridade penal e golpe contra a democracia.

Madame satã um espetáculo teatral de alto nível técnico, talento transbordante, formado por um grupo de artistas de alta qualidade. Um teatro musical com belíssimas cenas, um texto limpo, claro, esclarecedor, politizado em consonância com as idéias do Teatro Experimental do Negro com o objetivo de estimular a criação de novos textos, que sirvam aos seus propósitos. Sua diretriz é a temática ligada à situação do negro contendo a poética da corporeidade e elementos da cultura afro-religiosa perpassando a crítica social.

Madame Satã, sendo personagem escolhida pelo Grupo dos Dez para falar de um universo invisível: a prostituição, a pobreza, o racismo, a homofobia, a transfobia e toda a violência de uma sociedade hipócrita e calada frente ao preconceito e à intolerância vem marcar um momento muito importante para a cultura em Minas Gerais e no Brasil mediante as ameaças aos direitos civis que atravessamos na atualidade.

A trilha sonora é original, é um texto a parte, contendo instrumentos harmônicos e percussivos, permeado por vozes e canto numa afinação impecável que contribuem para uma riquíssima dramaturgia numa agradável escuta e sensações de hibridismo poético sonoro.

Quem não assistiu ainda este espetáculo, está perdendo um grande momento da cultura em Belo Horizonte, e testemunhar a afirmação, o talento de um grupo de artista afro-brasileiros comprometidos com a historia, com a arte sobretudo com a vida.

Eu fui, sai feliz, afetado pelo dom da vida, pela beleza – atravessado pela reflexão.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO

Direção Geral: João das Neves e Rodrigo Jerônimo

Direção Musical: Bia Nogueira

Dramaturgia: Marcos Fábio de Faria e Rodrigo Jerônimo (Sob orientação de João das Neves)

Arranjo Musical: Alysson Salvador

Preparação Rítmica: Daniel Guedes

Preparação Corporal: Benjamin Abras

Iluminação: João das Neves

Cabelo e maquiagem: Xisto Lopes

Cenário e figurino: Cicero Miranda e Débora Alves

Assistente de cenário e figurino: João Paulo Sousa e Rodrigo Ianni

Confecção de sapatos: Helênio Lima

Equipe de apoio figurino: Ana Maria Faleiro e Zilanda Barroso

Elenco: Allysson Salvador, Bia Nogueira, Daniel Guedes, Denilson Tourinho, Evandro Nunes, Flor Bevacqua, Gabriel Coupe, Julia Dias, Kátia Aracelle, Laís Lacôrte, Nath Rodrigues, Rodrigo Ferrari, Rodrigo Jerônimo, Thiago

A foto:

Não encontrei o autor. Peço desculpas.

Babilak Bah

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